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solstício de verão


Antonio Vivaldi, "As quatro estações", frag. "N.º 2, Verão" (1723)




solstício de verão

na linha azul do horizonte infindo,
repartido entre a luz da manhã clara
e a brumosa sombra que a noite lavra,
levanta-se, na geometria das trevas e dos dias,
o solstício do tempo e da palavra.

numa inundação de luz,
é esse o momento exacto e estático
em que o astro-rei mais se afasta do equador.
a noite escura serei.
tu, o dia redentor.


(o solstício de Verão ocorreu às 23:59 horas UTC, de 20JUN08)


Zbigniew Preisner, música do filme “The Beautiful Country” (2004)



quando estás mais longe, e a névoa sobe veludina e litorânea rente às azulinas escarpas, subo lentamente as escadas do labirinto das nossas memórias e entro no sótão esquecido de todas as reminiscências, utilizando a chave de cristal que um dia recebi da concha aberta da tua mão generosa.

abro então as arcas encouradas uma a uma, aonde furtivas se enclausuraram as nossas alegrias e mágoas, e onde os doces sorrisos se caldearam, nos dedáleos meandros da memória, com a saudade que orvalha e magoa e jubila na dispersão dos dias. na convergência dos segredos, sento-me em seguida numa cadeira de balouço envelhecida, e reabro os livros velhos e leio as cartas antigas, para mim sempre novas, como se pétalas frescas e perfumadas de rosas vermelhas eternamente renovadas.

depois, tu entras pelo silêncio da noite e sentas-te a meu lado, e sorris-me. no ardor das horas mansas que não morrem, ao som de uma qualquer estação de vivaldi, de uma sinfonia de beethoven ou de uma sonata de bach. com perfumes a cravo e magnólia, lentamente rescendendo das arcas de todas as memórias. e ali ficamos de mãos dadas, por dentro do nosso silêncio cíclico, até que jano abra, pela alvorada azul das estrelas, as portas a um novo dia.




Pior que as algemas metálicas, é a prisão das palavras.
Pior que a prisão das palavras, a escravidão do silêncio.
Peregrino


Dead Can Dance - Into the Labyrinth - “Yulunga (Spirit Dance)"




Deixai dormir as palavras

Imaculadas e inócuas
as palavras dormem
no seio do dicionário
o sono profundo dos inocentes.
Não as acordem.
Ouçam simplesmente o seu silêncio:
metódico, alfabético, inquietante.

Úbere semeadura esta
que tanto medra em bons viveiros
como na mais agreste tojeira.

Dentro de um dicionário,
do caos ao verbo,
cabe todo o Universo:
sem eufemismos,
sem hipérboles,
sem metáforas,
sem calendário.

Por vezes, é um bom semáforo
o meu dicionário:
sabe soltar o verde da esperança,
cuidar do amarelo da temperança
e parar no vermelho, por segurança.

Mas deveria ter mais sinais
o meu dicionário.
Deveria acautelar-me,
porquanto nele comungam
vida e morte,
respeito e desprezo,
nobreza e preconceito,
ciúme e remorso.

Nele crescem lado a lado
a iniquidade e a justiça,
a bondade e a ferocidade,
a irracionalidade e a razão,
a fidelidade e a traição.

E, como se tudo isto não bastasse,
o verbo e o caos
vagueiam perdidos pelo meu dicionário,
no particípio e no presente,
como sempre,
desde o princípio.
Tantas são as vezes
em que a dúvida se sobrepõe à certeza,
o ódio ao amor,
a indignidade à nobreza,
a cobardia à coragem,
a penúria à riqueza,
a guerra à paz.

Ventos oscilantes e incertos
deambulam pelas dobras vazias do tempo
sobre as searas incendiadas
que medram no meu dicionário.

Deixai, pois, dormir as palavras!
Deixai-as dormir, deixai!



Distanciando-se das obtusas complicações do presente, trazia saudosamente à memória o tempo primordial e simples, um nostálgico caleidoscópio de cores e brilhos irradiados pelos espelhos de luz das ribeiras da sua infância, repletas de juncos, libelinhas, nenúfares e risos de crianças.

A minha praia



A "minha" praia fica não muito longe da Praia de Ingrina (Igrina na "Obra Poética" III, 4ª Edição), da nossa saudosa e amada Sophia de Mello Breyner Andresen, onde "o grito da cigarra ergue a tarde a seu cimo e o perfume do orégão invade a felicidade» e onde se vê «o mar reflectido no seu primeiro espelho."


A minha praia


A minha praia é como uma sala de cinema.
Depois de um filme outro filme vem,
com novos actores e novo tema.

Pelo ângulo raso das horas
chegam à praia as barcas d’ alva.
Têm por âncora os músculos
bronze dos pescadores
e por alavanca os tractores
que sulcam a areia molhada.

Evanescentes torvelinhos de escamas e espuma
reflectem, bordados a oiro e púrpura,
os arrebóis da aurora.
É perpétua a sede da areia,
em cada fluxo mais sequiosa.

Estamos agora
no ângulo recto das horas.

No sol radiante da manhã clara
sobriamente gaiata
mudam-se os actores e as coisas.
É a vez dos nadadores-salvadores,
das bandeiras verdes
e dos primeiros veraneantes.
É tempo de bolas e de baldes de plástico,
de cadeiras de praia, toalhas, pára-ventos
e guarda-sóis de cores berrantes.

No rastilho luminoso de mar e sol
que penetra o azul eterno
vogam gaivotas de dorso cinzento
e peito de alabastro
trazidas pela viração aromada do galerno
que sereno sopra do largo
em perfeito contraste
com os escusados guarda-ventos.

Chegámos à prata do meio-dia.
Há legiões de corpos,
uns bronzeados, outros lácteos,
em descontrolada disputa
por cada palmo do areal.
E há gritos e risos de crianças,
brados de adultos
e pregões de vendedores de gelados.
E há corridas e passeios a pé
e desafinados mergulhos,
e repouso absoluto sobre a areia,
e até se ouve o roncar duma avioneta
sob os céus de Julho.

Diante do olhar tranquilo da cidade
tudo de novo se caldeia
em eternos fluxos e refluxos
que alternam a vazante com a maré cheia.

O bronze, ainda moço, desce do Sol
e em doces afagos amorena os corpos.
Aqui perto, munida de dois baldes de plástico,
uma criança tenta verter todo o mar
para um poço de areia e de cascalho,
diligenciando desvendar um mistério
que ouvira na catequese.
A seu lado, ofegantes,
dois jovens em piruetas de reviralho.
Mais à frente, joga-se volley de praia
e futebol de areia,
que irritam os que descansam
mas enrijecem e bronzeiam os que não se cansam.

Vai alto o Sol resplandecente
na tarde que aquece, imóvel,
sobre o longo declive
que baixa do zénite ao poente.

Numa ignescência
de sol e de sal,
êxtase são os risos e as algas,
enquanto alva a espuma continua
a sua dança de ventre com a areia.
No fresco remanso da brisa,
milhões de estilhas de luz beijam os ares
em eterno jogo de escondidas com o astro-rei.

É esta a praia onde te procuro,
na ausência da babilónia de vozes e de corpos.
É aqui que no breve sussurro do entardecer
um búzio me segredou, na maré nua,
que tu virás um dia pela noitinha,
ao nascer da Lua, pra eu te ver.


“Jupiter and Juno”, from “The Loves of the Gods”,
by Annibale Carracci (1560-1609)

à deusa juno

em ti, bendita juno,
a consagração do mês das regas e das colheitas,
a que concedeste a nobreza do teu sacro nome.
um mês de solstício, de casamentos e namorados,
de suculentos frutos e legumes,
de santos populares e fogueiras,
mês da foice em punho
e do flavo trigo nas eiras.

é este o teu mês,
divina juno,
e nele quero relembrar
e honrar o teu bom-nome
e deixar o meu testemunho.

belas e rociadas de plenitude
as noites e as antemanhãs
que nos concedes na quietude dos dias.

na beleza dos teus olhos,
a embriaguez azul
da infinitude dos céus,
a mesma luz que ofusca e inebria
os humanos e os deuses.

em teus purpurinos lábios
o incitamento ao beijo.
no teu corpo divino
o amor, o desejo, a beleza,
a força feminina
que gera a vida
e canta a natureza.

zelosa em teu himeneu com júpiter,
único no olimpo,
proteges, na tua graça,
como se fora teu,
o casamento de todas as mulheres,
que acolhes e amparas no teu coração.

a ti, deusa da maternidade,
elevo a minha voz e o meu olhar
e ofereço,
na modéstia dos simples,
o meu humilde verbo.

a ti, juno - ou hera -
rainha dos deuses
que cintilante nos surges
na tua clâmide de oiro e estrelas,
ergo a minha taça de vinho romano
- ou grego, tanto faz!–
e brindo à tua pureza,
à tua sensualidade,
à tua excelsa beleza,
na infinidade do olimpo arcano
de onde sopram os ventos da paz
e onde tudo é claro e exacto
e imponente e não efémero,
porque divino, e não humano.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades



José Mário Branco (adaptação - refrão a vermelho), instrumentação e interpretação do soneto “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”,de Luís de Camões


10 de Junho de 2008


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre, tomando sempre novas qualidades.

E se todo o mundo é composto de mudança
Troquemos-lhe as voltas qu’ inda o dia é uma criança.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, e do bem, (se algum houve...) as saudades.


Mas se todo o mundo é composto de mudança,
Troquemos-lhe as voltas, qu’ inda o dia é uma criança.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
E em mim converte, e em mim converte em choro o doce canto.


Mas se todo o mundo é composto de mudança,
Troquemos-lhe as voltas, qu’ inda o dia é uma criança.


E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía
Que não se muda, que não se muda já como soía.


Mas se todo o mundo é composto de mudança,
Troquemos-lhe as voltas, qu’ inda o dia é uma criança.

______________


“Dia da raça”, diz descabidamente o PR.

E eu digo: "dia inscrito em tempos de servidão e de desgraça, em que já se morre numa greve". (1)


(1) “Um elemento do piquete de motoristas em Zibreira, Alcanena (distrito de Santarém), foi atropelado mortalmente ao início da tarde (de hoje, 10 de Junho), por um camião que tentava furar o bloqueio (…)” (Agência Lusa, 10 de Junho de 2008)





Nada perdi de que fosse dono.
Nada ganhei do que não fora meu.
O que perdi? Tudo do nada que tenha tido.
O que ganhei? Nada do tudo que não tenha sido.
O que me resta? Nada do nada que não se tenha ido.


(imagem da autoria de Edna Feitosa)


uma intensa e profunda mágoa escapava-se-lhe dos olhos
como se todo o horizonte de água à sua volta se ensombrasse
e a natureza inteira se tivesse bruscamente desagregado
das estações de vivaldi para se unir à lacrimosa de mozart.









liberdade,
dignidade, justiça!









nascer.
renascer.


numa florescência de luz
suavemente nascer
e criar raízes.


serenamente renascer
por entre os lençóis de abril
sob a fragrância fresca
e impoluta dos cravos vermelhos.


tranquilamente nascer
- ou renascer -
sob o azul ameno
dos espelhos da esperança
que respira
e embala
e encanta
a primavera dos cravos
e da liberdade.




Onde param os espelhos da esperança?
Quem neles se vê ou revê?
Eu, não.

que as rosas - todas as rosas! - jamais espinhem o amantíssimo cravo.


25ABRIL2008



Pássaros cruéis


Green Day – “Wake Me Up When September Ends”







Pássaros cruéis


Um fluxo de dólares e de sangue
jorrando sobre a Mesopotâmia.
Um sino de fogo embutido nos umbrais do deserto.
E a fúria insana.
O crude golfando sobre o equinócio
num concerto de cinzas e de morte.

E há falcões.
Falcões que dançam e pairam sobre os soluços
do amanhecer sangrento.
Talvez abutres.

Cascatas de fogo, favilas calcinadas,
estilhaços, gritos, pedaços de argila.
Não há palavras. Apenas bombas e armas
e a morte galopando sobre as cidades.

Breve, um talismã tomba sobre o asfalto.
Um turbante esvoaça, branco,
sob o luar negro de fumo.
Calou-se a flauta de vento
que flébil gemia sob a tamareira.
Eternos e piedosos, a Lua e Vénus
velando a morte.

Cessaram os sorrisos no país de Aladino.
Sangue e lágrimas, apenas.
Um sem-fim de covas e cemitérios e morte.
A face lúgubre e sombria do fim.

Onde as crianças acordadas
no seu sonho peregrino?
Onde o berço da civilização? Onde a justiça?
Onde Babilónia, a dos Jardins Suspensos?
Onde as palavras que brotaram da argila?
Onde a água de sonho do Tigre?
Onde os pássaros voando na brisa levantina?
Onde as chispas de oiro e prata
das águas de espelhos do Eufrates
ora tintas de sangue?
Onde a mulher que embalava no berço
o seu menino de olhos de mel?
Onde o menino?
Onde a Babel?

A coberto dos ventos de opróbrio e azeviche,
nabucodonosores de barro tombam
-outros elevam-se! -
no resvalo da pedra de Sísifo.
Será tarde, muito tarde,
quando trepidantes de náusea
os corcéis de fogo do Apocalipse
migrarem para o frio
na companhia dos pássaros cruéis.

O verbo distorcido aguarda, receoso,
a frieza invencível da razão clara.
Viscoso e mole o mutismo dos homens
flanqueia a gelatina estática do caos.
Fenece, a pouco e pouco, o país de Gilgamesh.

____________________________________________

(Contador de actualização automática)


Após 5 anos de guerra:


Civis iraquianos mortos, em consequência da guerra:

desde 19MAR2003 até 25MAI2008, entre 84.050 e 91.713, segundo o Iraq Body Count;

654.965, segundo a prestigiada revista médico-científica britânica The Lancet, de 21OUT2006 (número de mortos calculado até 30SET2006)

Entretanto, segundo a CNN, as baixas das forças invasoras elevavam-se, em 23MAI2008, a 4.391 mortos (4.079 militares norte-americanos e 312 militares das restantes forças da coligação).

Militares norte-americanos feridos (até 23MAI08): 30.112 (fonte do Pentágono, segundo a CNN)


Morreram no Iraque 123 jornalistas, desde o início da guerra até 19MAR2008.,

Não são conhecidas as baixas das forças de segurança do Iraque bem como as dos chamados “rebeldes”.


"O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons."
Martin Luther King


Fontes:
http://www.iraqbodycount.org/
http://edition.cnn.com/SPECIALS/2003/iraq/forces/casualties/
http://www.thelancet.com/
http://icasualties.org/oif/

'erro bush' o mesmo que "erro crasso"








Os idos de Março sempre foram aziagos para os senhores da guerra.

Gaius Julius Caesar fora avisado por um áugure, quando a 15 de Março do ano 44 a.C. regressava da campanha da Gália, de que, como os idos de Março são fatídicos, não deveria entrar em Roma naquele dia. Insistiu, e entrou. O que aconteceu, já todos sabem. Foi apunhalado à entrada do Senado.


Mais de 2 milénios depois, nos idos de Março de 2003, “Georgius Bushus II”, “imperador da nova Roma”, decidiu invadir o Iraque, apesar da opinião contrária da maioria dos governos do Planeta, dado que as razões por ele aduzidas enfermavam de vários vícios. Ao arrepio das determinações da ONU e do bom senso, a guerra foi levada a efeito.


Talvez G. Bushus II não saiba desta coisa maléfica que são os idos de Março…


Embora os dicionários o não refiram - mencionam apenas que “crasso” deriva do latim “crassus” e significa “grosseiro” e “ignorante” - tenho para mim que o vocábulo deriva do nome de Marcus Licinius Crassus, homem grosseiro, teimoso e de medíocre talento, que foi cônsul e triúnviro da Roma Antiga, mercê da sua enorme fortuna e de fortes influências políticas.


Um dos muitos erros “crassos” daquele político romano foi não ter acatado os conselhos dos seus generais, ao pretender fazer guerra aos belicosos Partos, que apelidava de bárbaros imundos.


A Pártia englobava os territórios que vão da parte leste da Síria actual ao Afeganistão e Paquistão, e incluía todo o Irão e Iraque actuais, além de outras regiões vizinhas.


Crasso, devido à sua teimosia, viria a morrer às mãos dos Partos que tanto desprezava.


Talvez G. Bushus II também não saiba deste funesto acontecimento…


Acontecimento, aliás, já pressagiado (leia-se filmado) pelos 'áugures' do britânico "Channel 4", como se pode constatar no endereço seguinte (não é permitida a incorporação do clip no blog, pelo que trago, somente, a respectiva url):

http://www.youtube.com/watch?v=Wvwyx8Ai14U



Em comum com Marcus L. Crassus, temos que G. Bushus II ascendeu rapidamente na política auxiliado pela influência de instâncias poderosas e pela imensa fortuna familiar. Em comum, ainda, a invasão do Iraque e a tentativa de submissão da Síria e do Irão, para já não referir o Afeganistão (o outro tentou, mas morreu).


Creio que a “ nova Roma” tem dentro de si a figura temerária de um novo Marcos Licinius Crassus.


Quem diz que a História não se repete?


Entretanto, sugiro humildemente aos dicionaristas que passem a incluir nos dicionários um novo vocábulo: “bush”- adj., crasso, grosseiro, ignorante.


Nota: G. Bushus II declarou o término oficial da sua guerra de Pirro no dia 1 de Maio de 2003, altura em que o nº de mortos entre os seus soldados ascendia a 140 . A partir dessa data já morreram mais 3 715 militares, ou seja, 26,5 vezes aquele número (3 855 soldados norte-americanos mortos até 05NOV2007).


Que grande estratega, este Crassus moderno!!!


"Pilgrim" by Enya & The Hubble Deep Field by Tony Darnell

“(…)


Each heart is a pilgrim,
each one wants to know
the reason why the winds die
and where the stories go.
Pilgrim, in your jouney
you may travel far,
for pilgrim it's a long way
to find out who you are...


Pilgrim it's a long way
to find out who you are...


Pilgrim it's a long way
to find out who you are...”




Esta é, para mim, a mais bela homenagem prestada a Carl Sagan (1934-1996), porventura o maior astrónomo, astrofísico e astroquímico de sempre.


peregrino


Mikhail Ivanovitch Glinka, "Nocturno para harpa" (1839).





Quase nocturno



Engastado de mil cristais
é azul e fresco o céu nocturno.
Alta vai a Lua de Março,
círculo branco de prata
constelado pelo Serpentário.
Lua lânguida e trémula
que beija as ondas luminosas
do teu cabelo solto
e o carmim cintilante dos teus lábios.


Flava e imóvel
a seara de estrelas
paira sob a abóbada
zelosa do lume vivo dos teus olhos
e da doçura da tua boca fresca.


No veludo dos teus lábios
acesos na cor dos cravos
flutua um sorriso de fada.
Navego nesse sorriso
e naufrago na superfície dos teus olhos.
Trago nos meus abrigadas as mil distâncias,
essas linhas imensuráveis e exactas
que se fundem no sal mítico das lágrimas.


Trago nos pulsos o sangue roxo
das amoras bravas
e nos lábios o mel do verbo
que colhi contigo no verão passado.


E trago comigo o grito da águia solitária,
esse brado selvagem que ecoa no deserto
em cujas areias se fundem os meus sonhos
e onde as pérolas que brotam dos teus olhos
se desfazem em miríades de cristais
que sorvo silente a longos haustos.


Navego assim sem regresso
na curva ardente dos teus lábios
no rio fluente e sem margens
do teu sorriso ático.




Salvador Bacarisse - Concertino guitarra y orquesta, op. 72 - Romanza

___________________________________________________


Aceita com estoicismo a rejeição. Darás, assim, prova de elevação e de carácter, ao respeitar a liberdade de escolha dos outros.
Peregrino

__________________________________________________

Richard Strauss, “Assim falou Zaratustra, opus 30”, fragm. “Amanhecer” (1896).





Madrugada




se escutares
a voz de silêncio das estrelas,
ouvirás dizer que tu chegaste.
que chegaste nas asas do galerno,
essa corrente eterna
de ar oloroso e fresco
que sopra do mar.
e se olhares para trás,
para o rasto perfumado dos teus passos,
verás nos rostos dos que te seguem
o espelho cristalino do teu sorriso
solto no céu anil da madrugada.


[se te disser que chove na noite dos meus olhos
e que neva na madrugada do meu coração, não te minto.
são frases tão correctas como correcto é dizer-te que o quarto de lua
cavaqueia neste momento com a bela sadalmelik na constelação do aquário
e que o sol cintila, na sua luz branca, constelado pelo carneiro,
enquanto júpiter adormece, lânguido, no asterismo do sagitário.]




(29ABR2008, 22:00 horas)





Joaquín Rodrigo – “Concierto de Aranjuez” 2º Mov.
Interpret. à guitarra, Paco de Lucía (epdlp)




e todavia...



tudo volta ao princípio:
as flores, as pedras, a bruma, a tempestade...
e cada grão de tristeza
de que é feito o meu corpo
é levado pelo vento
e é-me devolvido pelo mar.
assim hoje,
tal como ontem e amanhã,
em ciclo,
incessantemente.


morrer leva tempo.
o tempo exacto de morrer devagar.
morri ontem, morrerei amanhã,
e no dia seguinte serei pedra, gelo, cinza, lava...
não sei onde mora o regresso.
só sei das folhas de outono e
das flores de inverno.
não das da primavera.


ainda que não chova,
outono-me na noite fria,
sem bússola nem polar,
por entre a neblina e as árvores.
divago assim dentro do inverno adiado
e adagio-me em arco sobre as cordas
tensas de um violino amargurado,
como se uma lia de veludo a partir-se.


[entanto, há tanto frio e tanta chuva morta,
e tantas folhas molhadas, perdidas de inverno,
penetrando oblíquas pelos umbrais da minha porta!...]





Gabriel Fauré (1845-1924), Pavana, opus 50.
.

Pavana triste pela mocinha
vitimada pelo coronel (in)sensível


Sim, quinze anos tinha
no seu corpo em brasa
a infeliz mocinha
que não tinha casa.
Tinha tranças d’oiro
e a pele alvacenta,
tu foste o primeiro
a arrastar-lhe a asa
naquele Janeiro
dos anos setenta.

Ela pai não teve
sequer tinha mãe
não tinha sapatos
não tinha vestidos
não tinha ninguém,
só dias sofridos.

Não havia lua
não havia estrelas
nem sequer abrigo,
a casa era a rua
da pobre donzela
que não tinha amigos.

O seu corpo grácil
de pele de alabastro
jamais resvalado
em sua puridade
não tinha cadastro
mas foi presa fácil
dum lobo esfaimado.

Se um dia voltares
à estrada velha
no negrume agreste,
detém-te e descobre-te,
acende uma vela.

Verás numa faia
- ou “feral cipreste”? -
a seta-coração
bem como a mensagem
que a bela catraia
em aflito pranto
no tronco entalhou
nessa noite túmulo
do seu corpo espanto.
Verás, para cúmulo,
que foste o primeiro
e também o último
a dar-lhe dinheiro.

(Peregrino)

NOTA:
a expressão “feral cipreste” foi retirada de "O Noivado do Sepulcro", de Soares de Passos.

já a seguir, o bolero do dito coronel:


Bolero do coronel sensível
que fez amor em Monsanto


Eu que me comovo
Por tudo e por nada
Deixei-te parada
Na berma da estrada
Usei o teu corpo
Paguei o teu preço
Esqueci o teu nome
Limpei-me com o lenço
Olhei-te a cintura
De pé no alcatrão
Levantei-te as saias
Deitei-te no banco
Num bosque de faias
De mala na mão
Nem sequer falaste
Nem sequer beijaste
Nem sequer gemeste,
Mordeste, abraçaste
Quinhentos escudos
Foi o que disseste
Tinhas quinze anos
Dezasseis, dezassete
Cheiravas a mato
À sopa dos pobres
A infância sem quarto
A suor, a chiclete
Saíste do carro
Alisando a blusa
Espiei da janela
Rosto de aguarela
Coxa em semifusa
Soltei o travão
Voltei para casa
De chaves na mão
Sobrancelha em asa
Disse: fiz serão
Ao filho e à mulher
Repeti a fruta
Acabei a ceia
Larguei o talher
Estendi-me na cama
De ouvido à escuta
E perna cruzada
Que de olhos em chama
Só tinha na ideia
Teu corpo parado
Na berma da estrada
Eu que me comovo
Por tudo e por nada

(António Lobo Antunes)




vazio



pois que frágil é o corpo
e efémero é o sonho,
talvez tenha sido
um incêndio de olhos,
quiçá de relâmpagos,
ou um reflexo de sol
sobre espelhos de água
de brilho intenso.


acaso um vento
magnético e solar
terá soprado naquele verão
numa estranha fluorescência de oiro e fogo
e iluminado, em intermitência,
qual boreal aurora,
os misteriosos altares do nada.



Johann Pachelbel, Cânone em ré maior (1680)






nas longas noites
que do céu caem
frias de inverno
no mês de jano
que imperturbável cresce
enquanto o glacial bóreas
talha sob o alvor do luar
os harmoniosos sincelos
quero incendiar-me
no fogo dos teus lábios
no fulgor dos teus olhos
no verão dos teus braços
no veludo quente da tua pele
e adormecer sob os altares de vento
da primavera dos teus cabelos.



Shambala



Passei a tarde toda à tua espera, à beira do lago do Jardim dos Poetas, na Cidade-Luz, esse flamejante paraíso da nossa Galáxia, onde rumorejam as fontes, os poetas e os deuses e vicejam o jasmim e o nardo, por entre palácios de zimbórios ogivados circundados por verdejantes e espaçosas alamedas.

O Sol flutuava sobre o Poente, quando observei a tua silhueta fascinante e sedutora no cimo da escadaria de mármore do Palácio do Caminho do Meio que margina o lago juncado de nenúfares multicores, à hora a que os céus se preparavam para entardecer sobre as dunas douradas do imenso e desmedido Gobi.

É esse, como sabes, o momento exacto e sublime em que a fulguração dos raios de luz do astro-rei produz um efeito alucinante de brilhos e refulgências sobre os rubis e safiras incrustados nas torres e cúpulas levantinas dos pujantes templos e palácios da Cidade-Cintilante.

Vi-te assim, vestida de serenidade e encanto, em Shambala, a cidade mítica e esquecida do deserto, em contraluz gerada por uma miríade de nitescências de cristais, gelo e areia.

Contemplei-te, pois, trajada de dignidade, bondade e meditação, junto à estátua de oiro do velho Gautama, no Jardim dos Poetas. E só dei pela noite quando tu saíste, e as estrelas te seguiram.

Só eu fiquei na escuridão.
Sonho-te agora, na penumbra dos dias, sob o azul fulgurante das memórias que flutuam sobre as searas brancas e luminosas da Cidade-Utopia, e espero-te. Na encruzilhada dos Oito Caminhos. Junto à estátua do velho Siddhartha. Em sonhos te aguardo.

Peregrino, in o "Templo das Palavras Esquecidas"


Arcangelo Corelli, "12 Sonatas para violino, violoncelo e clavicórdio"
Fragmento "nº 12, La Follia" (1700).




Geometria


Hoje não falarei, meu amor,
das essências do Oriente
nem da ambrósia que rocia os teus lábios.
Tão-pouco referirei
os capitosos elixires
do amor e da existência,
ícones sagrados da tua presença.

Hoje quero falar, e só,
da geometria acesa do teu corpo
e da gramática estilizada dos teus lábios,
onde paira a divina parábola.
Quero que saibas
que os teus olhos acendem os meus
e que meus dedos buscam nos teus
o alfabeto rosa
com que costuro as palavras.

Hoje quero falar da geometria
das colinas onde crescem as cerejas,
da planície e do monte do desejo,
do teu sangue quente,
que conduz nas minhas veias
o consolo e o alento.

Hoje quero falar dos ramos da hipérbole
que convergem na tua cintura de deusa grega,
das curvas elípticas dos teus lábios,
da linearidade do teu carácter,
da textura aveludada da tua pele,
do calor do teu corpo,
que me abriga e dá prazer;
do trigo do teu cabelo,
do aroma dos teus lábios
e da cintilação dos teus olhos
à luz azul-rosa dos néons da alameda.

Hoje não falarei, amor meu,
de néctares nem de filtros,
nem de essências do Oriente;
tão-pouco vou falar do azul do céu,
do etéreo timbre dos violinos de Corelli
ou do sonho que me prende, recorrente.
Hoje quero, amor, que ouças apenas, e tão-somente,
a geometria das coordenadas do meu silêncio...



Germán Diaz, "Ausência".




que farei das palavras sem o mel
lunar que escorre do teu rosto?
que farei do lume deste verbo
que nasce das pedras pandas
e trepa e viceja e medra como hera?


sim, que farei das palavras em que navego,
sem a simetria da parábola do teu torso?
que farei eu, que sou a assíntota
da hipérbole infinita do teu corpo?


que farei dos violinos de outono
que acordam e soluçam o meu desespero
quando anoiteço à deriva
como um rei sem trono?


que farei nos degraus oblíquos do amanhecer
por entre o zéfiro e o roxo das uvas
no odor morno e agridoce a fruta e a vinho mosto?
sim, quem me vai acordar “when september ends”?



Arcangelo Corelli, "12 Sonatas para violino, violoncelo e clavicórdio"
Fragmento "nº 12, La Follia" (1700).




Sonhos, vagos sonhos...




Sonhos, sonhos vagos,
sonhos azuis, castanhos,
delírios conscientes
germinados no sal da saudade.


Sonhos, vagos sonhos
que suspendem no vento
a minha voz silenciosa
e os meus segredos.


Sonhos, vagos sonhos, breve esperança
que a brisa singela eleva nos seus dedos
qual arco-íris que vagueia embutido
na bola de sabão duma criança.



Pela Paz, contra a Guerra!





Pela Paz, contra a Guerra

[Escrito a 12FEV2003 (5 semanas antes do início da guerra do Iraque)]


Umbelas, aviões e helicópteros
estrelam o céu azul eterno
do país da lendária Semíramis.


Rambos pintados destilam filtros de ódio
no berço da Primeira Civilização
e matam e morrem em guerras de petróleo
para impor a Babilónia o seu padrão.


Fragrâncias das Mil e Uma Noites
caldeiam-se com cheiros acres a Vietname
nos céus que foram da antiga Babilónia,
agora rastreados a branco por mísseis Sam.


E voltam a cair do azul infindo,
no suor dos camuflados amarelos
e de verde suspeito,
não babilónicos sonhos a Sherazade
mas Medusas que a sábia Ateneia
transforma em serpentes
que rastejam areias de oiro em pátria alheia.


E chovem divisões, tanques,
navios de guerra, jipes, camiões,
exércitos de Yankes,
helicópteros, aviões e
mísseis balísticos ar-terra-mar
em todas as combinações.


E há bombas laser,
porta-aviões,
granadas, balas e outras munições,
máscaras anti-gás,
baterias de canhões
e armas electrónicas.


Alguém viu armas químicas,
nucleares, biológicas?
Não?
Porquê a guerra então?!


Em terras de amavios e de essências
há filtros de ódio e contingências
de guerras económicas de petróleo.


Na madrugada do deserto inda estrelada
perecem xiitas, sunitas, americanos,
baralhando religião e liberdade,
quando se batem e tombam
apenas pelo ouro negro de Bagdad.


E morrem com estes homens,
crianças, velhos, jovens,
e mulheres duplamente sacrificadas
pela Bíblia e pelo Corão.
Tudo isto no país de Aladim,
terra que foi de fadas
e de varinhas de condão;
terra de magia e de lendas,
de princesas, mágicos tapetes e sultões,
em que a mítica Bagdade
apenas tinha um Ladrão.


Acabaram os elixires
no país de Sinbad,
ora sem génios nem grão-vizires.
Os tapetes mágicos
são agora aviões F-Dezoito e F-Dezasseis
e poderosos mísseis cruzeiro
trepassando os céus sangrentos de Bagdad.


Em terras de amavios e de essências
há filtros de ódio e contingências
de guerras económicas de petróleo.


Na antiga Babilónia e na velha Assíria,
terras de lendas, berços de antigas civilizações,
não queremos heróis a haurir o hidromel das Valquírias;
tão-pouco concebemos o retorno dos Quarenta Ladrões.


[Pela Paz, contra a Guerra,
virtuosa frase que a honra encerra!]


12FEV2003






Wolfgang Amadeus Mozart, Requiem, K626, 1791 fragmento “ Lacrimosa”


Rafah, Faixa de Gaza, Abril de 2002



A fúria assassina das balas rastreia
o corpo inocente duma criança da Palestina.
Não é lenço, a gaze branca e breve que lhe contorna a fronte.
Tampouco é burqa ou xador, a túnica alva e longa
que lhe envolve o corpo tenro. É um lençol de sangue.
Tinha seis curtos anos, esta menina;
os pais lhe deram um nome: Somaeah Hassan.

omnia vincit amor



omnia vincit amor



é brisa é eco raiz lamento
e no entanto não chora nem ecoa
antes ruge e troa tão pungente
tão indefinido quão incerto e transparente
que não é chuva nem é fogo nem é vento
é antes e tão-somente uma furtiva lágrima
um sentir de poeta um reflexo de luz intenso
tão demorado tão oculto e tão dolente
e é de tal forma e de tal sorte tão premente
que ressoando clandestino pelo peito
sentindo-se contudo não se sente
e ardendo todavia não se extingue


Nota: o título do meu escrito, "omnia vincit amor", foi retirado do verso 69, da Écloga X, de Virgílio.




Pyotr Ilyich Tchaikovsky - "A Bela Adormecida" (1889) - frag. "Panorama"





Cavalos da luz e do vento



Dizes-lhe que chame a si o pégaso de asas de oiro e o unicórnio de crinas de alabastro, a que chamas os cavalos da luz e do vento, que, na sua pureza e justiça, e flanqueando todos os abismos, a levarão para bem longe das suas angústias, mágoas e pesares, e a conduzirão ao reino transparente do fantástico, onde abundam o amor, o mel, o leite e o vinho ático da sabedoria e da ternura, e onde não há adversidades, nem desafectos, nem desventuras. Dizes-lhe, também, que coloque no Pégaso e no Unicórnio, respectivamente, uma brida de prata e outra de oiro.

Acrescentas que nesse reino cada vento pertence a um só quadrante e cada quadrante a um só vento, por forma a que ela possa determinar o perfume exacto em cada ângulo. Assim, o aroma doce do zéfiro será diferente do brando perfume do galerno, e a fria fragrância do bóreas distinta dos odores acres e abafados do desértico e arenoso suão ou do austero e sibilante vulturno.

Dizes-lhe, ainda, que não se preocupe em saber qual o caminho a seguir, e que deixe tal tarefa aos cavalos da luz e do vento, pois que eles e só eles conhecem os quadrantes de onde emanam os excelsos aromas das flores e das palavras, que são os que conduzem à serenidade, à paz e ao amor.

Não usará sela, nem estribos, nem botas, nem esporas, nem puxará as bridas de prata e de oiro, porquanto elas são, tão-somente, um adereço exigido pelos cavalos da luz e do vento como preito à dignidade e nobreza dos seus equivalentes terrestres.

Cavalgará de dia o fulgurante unicórnio, e logo que Vénus se acenda no poente, montará o possante pégaso, até que o Sol incendeie de púrpura e violeta os arrebóis da madrugada, altura em que desmontará e subirá de novo para o dorso veludíneo do unicórnio. Assim fará durante três dias e três noites, ao fim dos quais entrará no reino encantado da Música e da Poesia, onde Apolo e Calíope, ao som de sonatas e poemas declamados, passeiam de mãos dadas sob o sol dos tempos, por entre as flores dos cômoros e das alfombras aveludadas do Olimpo.

Peregrino, in "O Templo das Palavras Esquecidas"


Vicente Emilio Sojo (Venezuela, 1887-1974)
Cinco Piezas Venezolanas - I,Cántico (1940)



sueño



baja carmíneo el sol en la montaña fría,
mientras en mi piel el rojo vino
sangra en la ilusión de la rubra aurora.
en mis ojos la visión serena, mía,
del rocío de la madrugada que llora
por ti lágrimas de amargada nostalgia.


en mis anhelos tengo la mirada clara
de tu cuerpo desnudo, albos senos al viento,
altos cumbres, que una vana quimera
convierte mi fantasía en vil tormento.


flagro en alcobas de vagos doseles,
de rúbeos veludos volitando al cielo,
en áridas colinas, yermos vergeles
de ausente placer en noche de breo.


en lunas de plata y en soles de oro,
cabalgo sin descanso noche y día
buscando tu olimpo, divinal tesoro,
para levarte hacia la secreta playa,
y, en la pureza de la llama que me consume,
besarte, mi alma, antes que la mía se vaya.



ME BASTA ASÍ



"La palabra en el aire". Pedro Guerra canta, e o poeta Ángel González recita o poema que se segue:


ME BASTA ASÍ


Si yo fuese Dios
y tuviese el secreto,
haría un ser exacto a ti;
lo probaría
(a la manera de los panaderos
cuando prueban el pan, es decir:
con la boca),
y si ese sabor fuese
igual al tuyo, o sea
tu mismo olor, y tu manera
de sonreír,
y de guardar silencio,
y de estrechar mi mano estrictamente,
y de besarnos sin hacernos daño
—de esto sí estoy seguro: pongo
tanta atención cuando te beso—;
entonces,
si yo fuese Dios,
podría repetirte y repetirte,
siempre la misma y siempre diferente,
sin cansarme jamás del juego idéntico,
sin desdeñar tampoco la que fuiste
por la que ibas a ser dentro de nada;
ya no sé si me explico, pero quiero
aclarar que si yo fuese
Dios, haría
lo posible por ser Ángel González
para quererte tal como te quiero,
para aguardar con calma
a que te crees tú misma cada día
a que sorprendas todas las mañanas
la luz recién nacida con tu propia
luz, y corras
la cortina impalpable que separa
el sueño de la vida,
resucitándome con tu palabra,
Lázaro alegre,
yo,
mojado todavía
de sombras y pereza,
sorprendido y absorto
en la contemplación de todo aquello
que, en unión de mí mismo,
recuperas y salvas, mueves, dejas
abandonado cuando —luego— callas…
(Escucho tu silencio.
Oigo
constelaciones: existes.
Creo en ti.
Eres.
Me basta).


Ángel González
(o poeta faleceu em Madrid, no dia 12 de Janeiro de 2008, com 82 anos de idade)


Camille Saint-Saens, "Sansão e Dalila", fragm."Bacanal"


Miragem


Escrevia-te até à madrugada das estrelas, quando estas se abeiravam da linha ténue e indefinida que separa a obscuridade nocturna do azul radioso da alvorada.
Essa era a hora em que a tristeza, contornando todos os obstáculos e silêncios, se ausentava. No intervalo ameno do teu sorriso, a noite escorria serena e sem ponteiros, confundindo-se com a respiração tranquila da terra. Só a estrela de alva no mostrador de espelhos da etérea abóbada marcava as horas. E assim, Jano e Cronos, no rigor inflexível que distingue os deuses dos homens, determinavam a abertura das portas a um novo dia.
(…)
Era esse o momento solene e sublime em que os meus olhos, sob o efeito fulgurante do lampadário do Sol, divisavam ao longe somente os contornos do teu torso feminino navegando a bordo do vento morno que soprava do Oriente, como se foras uma peregrina miragem. Mas à medida que te aproximavas, as ondas resplandecentes dos teus cabelos, associadas às linhas bem definidas da tua túnica, moldavam sobre o fundo de areia o teu corpo de deusa-menina, mostrando-me que o fulgor dos teus olhos não era uma alucinação dos meus sentidos. Eras mesmo tu, fina no porte e ágil na cintura, fresca e harmoniosa como sempre, que, trazida pela brisa levantina do meio-dia, flutuavas por entre as sombras vaporosas das palmeiras e dos sicómoros, por dentro do silêncio quente e perfumado das dunas do tempo que tornam imutável a razão das coisas.


Nesses ditosos momentos, imóvel e envolto no teu delicioso perfume, esquecia tudo e todos na distância dolorosa oculta pelo sal das lágrimas, e também de mim me esquecia, como se houvera regressado aos juncos, às pedras polidas e profundas, e aos verdes limos das ribeiras cristalinas da minha infância.



Peregrino, in "O Templo das Palavras Esquecidas"



Escrevo-te a tinta virtual



Sem forma, nem gesto, nem face,
como tinta de sangue que lacera as penas
nos abismos de uma enorme ferida,
a luz purpúrea e equinocial do cair da tarde
penetra como um espinho na minha carne.

Escrevo-te a tinta virtual.
Imperceptível, mas indelével.
O papel, um cristal de vídeo
numa floresta de sons mudos
vestidos da distância que traja
a dor imperecível da saudade.

Escrevo-te a tinta de água.
As minhas pálpebras piscam
sobre a íris fatigada
na perscrutação do horizonte líquido
de que se revestem as lágrimas.

Escrevo-te, pois, a tinta de sal,
imaginando que te vejo
através da bruma vermelha
que beija o mar e a areia
nos espelhos de silêncio
que purpurejam o ocaso.

Como vento bramindo rente ao velame
de um navio sem roteiro e sem escala,
os meus dedos fustigam as claves mudas
enquanto te sonham lume e verbo
no recuo da tarde frente à noite escura.
Escrevo-te, assim, a tinta de sangue.
A tinta de sangue te escrevo
nos umbrais do incêndio em que anoiteço.





Dá-me um pedaço desse teu deserto nu,
e com ele modelarei os meus dedos de areia.
E os meus dedos de areia hão-de ter raízes
e dessas raízes hão-de brotar palavras sobre as claves mudas.
E as claves mudas hão-de converter-se em lenho
e o lenho em nau. Uma nau romana, estranha,
de fogo e verbo greco-latinos, ondulando vertiginosamente sobre a espuma das águas
ao sabor das rajadas inclementes do vulturno.
Como um nocturno avejão de asas largas
profundamente dilaceradas.


Uma nau sem velas, nem leme, nem mastros, nem remos,
vogando opaca e silenciosa na noite atra
em busca de um porto de abrigo.
Uma nau fantasma que tenha por vexilo
a saudade da memória inicial
e por tripulantes os espectros de pedra, vento e areia,
que são os meus dedos de silício. Nados do deserto urbano. Que é o meu deserto.
O deserto nu onde te procuro,
ora convertido num frígido e plangente cristal de vídeo.


E é este gélido cristalino que teima em alterar,
por inversão, as retínicas e idílicas imagens
dos meus horizontes longínquos. Perdidos na voragem
da distância-abismo gerada e soprada por muitas ondas,
nesta floresta panda de sons mudos que esmagam o vazio.
Vazio que se veste de espelhos de branca espuma
e de uma miríade de lâmpadas estranhas.


Procuro-te, pois, no deserto urbano, através do abismo das sílabas
e de uma infinidade de labirintos sem margens.
Sei que é no seu termo que se encontra a afirmação dos teus olhos
e a confirmação do teu sorriso ático.
Por entre o silêncio tácito das arcas encoiradas
e o sossego deslumbrante dos livros antigos,
surges-me, assim, sol, asa, brisa, farol,
e ao teu porto de abrigo me recolho
como sedento peregrino ao viridente oásis.


R. Sakamoto – Merry Christmas Mr. Lawrence


É Natal, e no entanto…



Ah, pudesse eu ser início,
a chuva, o vento, o breve relâmpago
ou a resplandecente alvorada
de onde brotam todas as coisas!

Ser talvez um reflexo de tempo e de sol
sobre a vertigem da gota de orvalho
que cintila sobre os espelhos da madrugada.

Ser a ponte pênsil sobre o vazio
ou porventura a quietude indecisa do nada.


Ah, pudesse eu ser a palavra
ou o sinal do vento estranho
que escolta a ave que no outono emigra
num rumo de primaveras e árvores verdes
numa façanha irisada de infinitos!


Ah, pudesse eu entrar pela estrela de alva
e ouvir a tua voz nítida e doce
pairando sobre a quietude do solstício
num anúncio de aconchego e de Natal!


Ah, mas não sou,
não posso ser,
nem ouço a tua voz…
e assim me calo.








Não obstante...


Há algo de diferente
no círculo luminoso do Natal.
Algo radioso e belo
que, furtivo, se insinua
num despertar tranquilo e sem lamentos.
Como se as estrelas embutidas no firmamento
até nós descessem, inconscientes,
para fazer parte da nossa carne e da nossa mente.


(Como se desde sempre nos pertencessem)

Oliver Shanti & Joanne Shenandoah, "You can hear them dancing"


a flor do jarro



no vale do amor
sob as colinas
a bráctea alva
e espiralada
de uma flor de jarro.


deambula na envolvência
silente dos lençóis
e nos contornos do lume
quente dos seus olhos.


veleja na luz intensa
e sem penumbras
dos seus túmidos seios.


os seus dedos de areia
vagueiam pela epiderme incendiada
e naufragam nos anéis
de centeio dos seus cabelos.


em delírio
devaneiam.


tresvariam na nudez escarlate
e nítida dos anelos
noite após noite
sobre a pele mate
como se rubras pétalas
de rosas perfumadas
vogando ao sabor do vento...
abertas.




Camille Saint-Saens, "Danse macabre, opus 40" (1874)
(estreada no Teatro da Corte de Weimar em 2DEZ1877)





(…)
Praias do Índico, idos de 2001.

Aqui, quando quente e húmido o vento sopra do largo, é Natal. E as chuvas da Monção abatem-se sobre o hotel e recordam-me a noite tempestuosa e bela em que nos tivemos nos braços um do outro. Lembras-te da bela surpresa que me fizeste com um véu que portava o Taj Mahal?
Nostálgico, mergulho nas mornas águas da Mãe África, e enquanto elas me empurram rumo à superfície, lembro-me do nosso tempo único e irrepetível.
Aqui estou agora, à tua espera, nesta erma praia do Amor, onde as areias faíscam de ouro régio e é possível sonhar sereias e pégasos porque estas são as terras míticas e “abensonhadas” de Mia Couto.
Resisti em regressar a estas paragens onde nos amámos, mas um dia, dois moçambicanos que encontrei no Terreiro do Paço, mostraram-me fotografias de tandos e florestas, e de mulheres e de homens de África com seus belos torsos nus, em tudo semelhantes àqueles que no Sudão fizeram a paixão de Riefenstahl, a fotógrafa maldita, e eu não resisti e obedeci ao chamamento da saudade.
A minha pele tisnada e crestada pelo Sol africano, assemelha-se à destes Hércules, e mal consigo entreabrir os olhos para admirar o mar que tenho a meus pés, que vibra em miríades de centelhas de prata, tal a intensidade do astro-rei que parece ancorado nos espelhos de claridade deste céu infinitamente opalino e transparente.(…)

Peregrino, in “O Templo das palavras Esquecidas)




Peregrino, in "O Templo das Palavras Esquecidas"




Gotan Project – Paris, Texas






Sonho, não quero acordar





Mote:
Entre lençóis de alvo linho,
sonho, não quero acordar.




À noite o meu pensamento
abrigarei com ternura,
consumando a aventura
de viajar com o vento.
Qual ave que busca o ninho
para nele pernoitar,
entre lençóis de alvo linho,
sonho, não quero acordar.



Já me atormenta a saudade
de ao seu seio me acolher
e tudo farei no mister
de amar a minha deidade
com a doçura e carinho
com que a areia beija o mar.
Entre lençóis de alvo linho,
sonho, não quero acordar.



Este eterno delirar
beijando os lábios macios
em devaneios ao luar,
afasta os dias sombrios.
Nas noites em que caminho
ao longo do seu olhar,
entre lençóis de alvo linho,
sonho, não quero acordar.


E dou por mim a cismar:
não perderei a esperança
do dulçor do seu olhar
que o meu coração já alcança.
Com ela vivo a sonhar
E não me sinto sozinho.
Entre lençóis de alvo linho,
sonho, não quero acordar.



Nas noites silenciosas,
sob um quarto de luar,
busco as suas mãos mimosas
e beijo os seus lábios rosas
no pinheiral junto ao mar.
Por entre aromas de pinho,
entre lençóis de alvo linho,
sonho, não quero acordar.



Quando nas noites d’Inverno
o meu corpo com o seu fremir
na magia dum beijo terno,
com ela vou compartir
por sobre a neve de arminho
a luz do céu estelar.
Entre lençóis de alvo linho,
sonho, não quero acordar.




o amor



este sentir
este dulçor
que nos envolve
e que ressoa
e se repete
e se insinua
ora agitado
como uma vaga
ora sereno
qual luz da lua
e sem embargo
evanescente
qual breve espuma
ontem e hoje
tal como dantes
eternamente
meloso e amargo
como as flores
e se enciúma
por tantas vezes
tão requebrado
e elanguescente
e sobremodo
tão estranho
e tão bondoso
antes cativo
tão doloroso
pesado e leve
como um suspiro
quando nos foge
e faz sofrer
tão abstracto
quanto alheio
e indefinível
e tão imenso
quão impreciso
indecifrável
misterioso
acaso simples
e no entanto
tão complicado
e tão difícil
que ora aquece
ora resfria
sem ser fogo
sem ser gelo
pedra polida
quase infrangível
e todavia
também se quebra
por vezes alto
quase intangível
impetuoso
na eterna busca
de fins sem meios
é cego e surdo
por vezes louco
nos seus anseios
de tudo um pouco
e apesar disso
é tão fiel
e tão maduro
e tão constante
quantas as vezes
em que é instável
porque imaturo
e inconstante
e ainda assim
tão perdoável
mesmo na dor
e no castigo
este sentir
esta emoção
esta harmonia
esta paixão
que nos envolve
em alegria
esta doçura
este langor
que nos atrai
e nos encanta
que às vezes parte
num mar de lágrimas
mas não se esvai
antes redobra
e não soçobra
tão promissor
sempre que volta
chama-se amor.







desencontro




procuro-te no silêncio agudo
das arestas da noite.
respondem-me os néons,
em equações severas, nocturnas,
que se espraiam em sombras
soturnas pelo estuário da minha mente.


oh, como é dura e arbitrária
a álgebra dos amantes!
maleável para muitos,
para outros imperscrutável,
rege-se por insanas equações
com muitas incógnitas
e raras soluções.


sigo o fogo do teu corpo
que aquece a noite
e dissipa a cerração.
sinto-te perto.
desço a “avenida da solidão”
e enxergo, na neblina
que se ergue do rio,
a brancura suave do teu colo.


subo atrás de ti a “rua do silêncio”,
onde, na madrugada das estrelas,
cai uma poalha de ouro
que flutua em cristais de luz e cor
que se confundem com os teus cabelos.


sigo-te agora nas brisas
do nardo e do jasmim.
no ar, uma mistura de essências e perfumes
faz-me perder de novo o rumo.


uma flor de lótus embriagada
flutua e dança num lago de lua.
delineia, na sua marmórea limpidez,
a curva que do teu ombro desce ao núbil flanco.
no enigma de espelhos que me rodeia
esqueço-me e confundo-me a meio do largo.


na geometria distraída duma placa toponímica
se prende a minha atenção.
gravadas a letras negras e silenciosas,
caem sobre mim, dolorosas,
as palavras “largo da desilusão”.


comparo-te ao fulgor das estrelas
que brilham na escuridão:
azul e oiro sobre os abismos da noite.
como os astros, não te deixas tocar.


[- tempo, silêncio, distância -
três incógnitas indecifráveis
navegando à bolina
sobre a equação cristalina do teu olhar.]



eflúvios




como a chuva
que meus lábios molha
quisera receber de ti
a mádida pérola
que teimosa
pela tua face rola
e se abandona
no veludo dos teus lábios.



quisera ser para ti o chão
que bebe a uva
e recebe a folha
que baixa do outono
na desfolha
da minha solidão.



quisera ser a viração singela
que beija os teus cabelos
e afaga o teu belo rosto
em cuidadosos desvelos
nas manhãs de primavera.



quisera alcançar a felicidade
nirvânica da certeza mística
e receber de ti o estável equilíbrio
do infinito absoluto
cuja nitidez dói
de tão intensamente azul.


quisera…


Ralph Vaughan Williams (1872-1958) - "Sir John in Love",
frag. “Fantasia on Greensleeves “






folhas de outono


na alameda do esquecimento,
onde o vento de outono
varre as folhas esquálidas,
outrora verdes,
oiço os suspiros moribundos
dos velhos estandartes
que na vernal brisa drapejaram
tendo por fundo o azul dos céus.


na frescura dos tempos idos,
ciciavam aos rouxinóis e colibris
o hino e a alegria da mãe natura,
a mesma que ora as aniquila e devora
como pássaros mortalmente feridos,
enquanto o viço da relva, soluçante,
bebe as suas lágrimas de sangue e de cansaço
e em orvalhados beijos se despede
das rumorejantes companheiras de um equinócio distante.


[tal como os humanos,
as folhas de outono não entendem
o eterno e incessante retorno das coisas]



El Condor Pasa - Espíritu Andino




Zeferino



Zeferino tem tudo
o que quer
e o que não quer


Tem emprego
mulher na cama
dinheiro no banco
filho na escola


Não tem amante
mas sabe que ama
e todavia sente-se
pássaro na gaiola


Com sonhos condores
quer subir aos píncaros
e ver as fontes e ouvi-las
no inquieto sossego
de seus rumores


Quer escutar
o ramalhar das árvores
nas encostas dos montes
dormir ao relento
ouvir o rouxinol
sentir nas faces o vento


Zeferino quer fugir
p’ra ver morrer o Sol
em baixela de oiro
à tardinha no mar
e em taça de prata
ver nascer a Lua
atrás da serra


Mas Zeferino
preso em casa
põe-se à janela
e só vê a rua.



O Senhor do Tempo



Costumava passear-se pelas divisões da nossa casa um senhor muito velho, que se detinha por períodos muito dilatados junto do enorme relógio pendular da biblioteca. Este, que se encontrava num dos cantos mais iluminados da grande sala rectangular, estava embutido numa enorme caixa de mogno negro com incrustações a ouro e prata. Ninguém sabia ao certo em que época fora construído aquele relógio. Sabíamos somente que o mesmo fora comprado pelo meu trisavô materno num leilão de objectos que tinham sido pertença dum conde arruinado. O senhor muito velho e muito alto tinha uma grande admiração pelo relógio. Diria mesmo que um enorme fascínio o retinha à frente do precioso medidor do tempo. Estava sempre presente quando o relógio surpreendia o silêncio da casa com as batidas monocórdicas das horas, anunciando que uma pequena partícula de vida, de matéria, ou de nada, desaparecera para sempre do local onde nunca estivera.


E se falo em silêncio, é porque este realmente se fazia sentir por toda a extensa sala, dado que até o som cavo e compassado do movimento oscilatório do pêndulo adormecera de cansaço, no incessante vaivém que flutuava ora aquém ora para além das memórias submersas. Vim a saber, alguns anos mais tarde, que era preferível chamar "tic-tac" a tal movimento pendular, e não “vaivém”, porquanto, na sua demora, o tempo que “vai” ausenta-se e já não “vem” mais.


O homem alto e velho, em cujos olhos negros e profundos habitava um ar lânguido de vagar e paciência, transportava na mão direita uma antiquíssima ampulheta, na qual colocara finíssimos grãos de areia do Infidável Deserto, que ficava para além dos cumes azuis da Grande Distância. Por vezes, trazia não esse relógio e sim uma clepsidra, também velhíssima na aparência, constituída por dois vasos de ouro da mesma capacidade. Vim a saber que a água que neles circulava fora trazida da Fonte Clepsidra, que ficava num solitário e montanhoso aclive da Messénia, lá longe, no ensolarado Peloponeso, e que fora nessa fonte que as ninfas banharam Zeus-menino.


Na mão sinistra o senhor idoso trazia sempre um enorme gadanho polido e afiado, embora já bastante denteado e coberto de ferrugem nos contornos opostos ao gume, logo a seguir ao cabo.


O velho senhor tinha barba e cabelos muito encanecidos, que lhe caíam pelo rosto e ombros em finíssimos fios de prata, e as mãos, que estavam muito bem tratadas, eram sulcadas por veias de um azul profundo e muito saliente. Estavam sempre estendidas para a terra, insinuando-se como se raízes ao contrário, que quisessem agarrar algo que nunca chegámos a decifrar.


Tinha um semblante muito triste, esse senhor. Cheguei a pensar que não gostava do seu ofício, embora eu não soubesse na altura se ele tinha alguma profissão. Vim a saber mais tarde, já muito longe da minha infância antiga, que o mester desse senhor lhe exigia um esforço tremendo e uma atenção cuidadosa e permanente. Mas, apesar dessa atenção especial e do cuidado extraordinário posto na execução das suas tarefas, e a despeito de ser um exímio matemático, enganava-se amiúde na contagem do tempo, o que talvez fosse devido à senilidade e ao cansaço. De tal forma, que, com uma frequência inusitada até nas contas dos homens, chegava a considerar que crianças de tenra idade eram já muito velhas. Por vezes também se enganava na contagem do tempo dos idosos, e estes faziam todos os possíveis por não lhe despertar a atenção, pois se o fizessem, ele nesse mesmo momento lhes fecharia as contas, saldando-as.


Em boa verdade, nós nunca víramos o senhor idoso que se passeava pela nossa casa, nem sabíamos ao certo da sua existência. Conhecíamo-lo apenas através de quadros pintados e assinados por pintores do Renascimento e até de épocas mais recuadas, mas pressentíamo-lo na sua errância pela casa.
Mais tarde, soubemos da sua existência real por um nosso vizinho e amigo, ao qual chamávamos avô, devido à sua avançada idade, muito embora parecesse um jovem se comparada a sua velhice com a do senhor da ampulheta.


Disse-nos esse vizinho, homem muito atilado e sabedor, porque viajado pelos raspados palimpsestos da Grécia Antiga, que esse velho era omnipresente, e desde sempre andara por ali, junto das pessoas, medindo todos os seus tempos. Até mesmo os tempos do passado sem futuro, os do presente sem pretérito, os do futuro sem presente e também os do infinitivo sem condicional. Disse-nos ainda que ele medira os tempos de todos os residentes da nossa casa desde a sua construção, há séculos, até aos nossos dias e que continuaria eternamente nessa tarefa de fim imprevisível. E dizia que esse senhor estava presente em todas as casas, e ruas e montanhas e mares, desde o princípio, medindo o tempo de todas as pessoas, animais e coisas.


Um dia perguntei ao meu avô-vizinho quem apontava o tempo desse velhinho, e ele respondeu-me que ninguém, porquanto o senhor muito idoso era o próprio Tempo. Trabalhava desde o arranque do árido e do vazio, quando nos umbrais dos abismos as sombras da vertigem inicial ainda nada tinham a ver com a luz e muito menos com as trevas. Desculpava-se o velhinho, dizendo que não dispunha de tempo para si, desde sempre. De resto, nem tal faria sentido, dado que esse senhor nada tinha. Era, somente.


Como disse, nós nunca víramos esse homem. Mas agora, que sabíamos que ele andava por ali, sentíamos amiúde a sua presença, os seus passos vagos e até a sua respiração surda e ofegante ao longo dos corredores extensos dos dias e das noites. Por vezes, pressentíamos um ligeiro rumor de asas, mas nunca chegámos a saber se o senhor tinha asas, apesar de pensarmos que ele necessitava delas para mais rapidamente se deslocar de um lado para o outro no cumprimento das suas tarefas urgentes. Tão habituados estávamos à sua companhia, que o mesmo já nos era familiar. Como se por ali andasse desde o início, tal como nos dissera o nosso vizinho.


E nós, e todas as pessoas, sabíamos que ele apontava todos os minutos e horas e dias e anos e até segundos das nossas vidas no velho pergaminho, e sabíamos que um dia esse homem já não teria mais tempo para apontar a cada um de nós nem aos outros. Em boa verdade, nunca chegámos a saber se era ele que, fatigado, decidia que já não queria apontar mais tempo, ou se este simplesmente chegara ao fim, independentemente da sua vontade. Talvez essa vontade fosse a das cristalinas gotas de água que ele recolhera na longínqua fonte da Messénia, no início do vazio, ou a dos finíssimos grãos de areia branca que trouxera do Infindável Deserto, no princípio da longa distância.


Numa noite chuvosa e fria, quando nos encontrávamos à lareira da biblioteca com o nosso vizinho, ouvimos o relógio bater compassadamente a meia-noite. Foi nesse preciso momento que lhe perguntei como se chamava o senhor que apontava o tempo.


O nosso vizinho respondeu-nos que alguns lhe chamam Cronos, enquanto outros lhe dão nomes diferentes. E acrescentou que ele cronometra tudo com um relógio muito especial e invisível, e por isso mesmo desconhecido dos humanos.


Disse-nos ainda que nos referiu que o senhor idoso se regulava por clepsidras e relógios de areia, por assim ter lido nos rasurados palimpsestos dos Gregos e nos pergaminhos do Antigo Egipto, que diziam que esse senhor tinha quatro olhos e quatro asas, mas que tinha sérias dúvidas sobre essa versão trazida até nós através da penumbra dos tempos não medidos.


Ao tomarem conhecimento das tarefas desse velhinho, os homens de imediato tentaram imitá-lo na contagem do tempo, construindo ao longo da História os mais diversos e sofisticados instrumentos de medição, como relógios de água, de sol, de areia, de parede, de pulso, e até de fogo. Não satisfeitos, colocaram instrumentos de medida do tempo ligados aos sinos das altas torres das igrejas, os quais badalavam os tempos pelas cidades e aldeias e planícies, ressoando na distância por vales e quebradas.


Alguns foram tão longe, que até deram o nome de cronómetro a mais um invento. O velhinho não gostou do abuso, e considerou mesmo assaz descarado o atrevimento do homem, ao incrustar o seu nome sagrado no do estéril invento, como se fora uma prótese. O homem devia venerar o seu nome, por este representar o Tempo absoluto, porque extraterreno e eterno, que não aquele de que se veste a relatividade comezinha dos humanos.


Não satisfeitos, os homens foram ainda mais alto, e inventaram uns relógios esquisitos a que pomposamente deram o nome de atómicos, e semearam-nos por espaços estranhos a que chamaram auto-estradas da informação para que os tempos fossem, assim, melhor medidos.
Mal sabiam os homens que contra si próprios trabalhavam. Desde que os seus inventos viram a luz do dia, cedo as noites desceram sobre eles e eram tão curtas que lhes não permitiam descansar. E os homens passaram então a zangar-se uns com os outros logo pela manhã, apontando para os aparelhos medidores, como que a pedir razões dos atrasos aos infractores. E a vida nunca mais foi doce e pausada como na era do antes.


O senhor velho ri-se de toda esta parafernália de instrumentos de pseudomedida, e diz que a mente doentia do homem lhe fez crer ter tido acesso a um grande invento, quando na realidade se trata de instrumentos ridículos e anacrónicos, porquanto não são capazes de medir nem de registar o tempo absoluto, que é o tempo de todas as partidas e chegadas, desde o instante zero até à meta, que fica na curva escondida da estrada, para além de todas as distâncias. Diz-nos esse senhor que só ele sabe o que é o tempo absoluto e que jamais os humanos o entenderão, tal como nunca compreenderão o espaço que os circunda até ao infinito, limitando-se eles a comparar o nada com o nada, e o pouco com o pouco, nas margens enigmáticas e precárias daquilo a que chamam vida.


“O absoluto mora longe, no vazio de todas as distâncias albergadas pelo infinito!” - gritou-nos um dia o velho senhor, elevando a sua voz da pausa e silêncio em que sempre estivera mergulhada, após o relógio grande da biblioteca ter distribuído metade das suas badaladas pela noite e outra metade pela madrugada.