AC_FL_RunContent( 'codebase','http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=9,0,28,0','width','148','height','165','src','musica','quality','high','pluginspage','http://www.adobe.com/shockwave/download/download.cgi?P1_Prod_Version=ShockwaveFlash','wmode','transparent','movie','musica' ); //end AC code

solstício de verão


Antonio Vivaldi, "As quatro estações", frag. "N.º 2, Verão" (1723)




solstício de verão

na linha azul do horizonte infindo,
repartido entre a luz da manhã clara
e a brumosa sombra que a noite lavra,
levanta-se, na geometria das trevas e dos dias,
o solstício do tempo e da palavra.

numa inundação de luz,
é esse o momento exacto e estático
em que o astro-rei mais se afasta do equador.
a noite escura serei.
tu, o dia redentor.


(o solstício de Verão ocorreu às 23:59 horas UTC, de 20JUN08)


Zbigniew Preisner, música do filme “The Beautiful Country” (2004)



quando estás mais longe, e a névoa sobe veludina e litorânea rente às azulinas escarpas, subo lentamente as escadas do labirinto das nossas memórias e entro no sótão esquecido de todas as reminiscências, utilizando a chave de cristal que um dia recebi da concha aberta da tua mão generosa.

abro então as arcas encouradas uma a uma, aonde furtivas se enclausuraram as nossas alegrias e mágoas, e onde os doces sorrisos se caldearam, nos dedáleos meandros da memória, com a saudade que orvalha e magoa e jubila na dispersão dos dias. na convergência dos segredos, sento-me em seguida numa cadeira de balouço envelhecida, e reabro os livros velhos e leio as cartas antigas, para mim sempre novas, como se pétalas frescas e perfumadas de rosas vermelhas eternamente renovadas.

depois, tu entras pelo silêncio da noite e sentas-te a meu lado, e sorris-me. no ardor das horas mansas que não morrem, ao som de uma qualquer estação de vivaldi, de uma sinfonia de beethoven ou de uma sonata de bach. com perfumes a cravo e magnólia, lentamente rescendendo das arcas de todas as memórias. e ali ficamos de mãos dadas, por dentro do nosso silêncio cíclico, até que jano abra, pela alvorada azul das estrelas, as portas a um novo dia.




Pior que as algemas metálicas, é a prisão das palavras.
Pior que a prisão das palavras, a escravidão do silêncio.
Peregrino


Dead Can Dance - Into the Labyrinth - “Yulunga (Spirit Dance)"




Deixai dormir as palavras

Imaculadas e inócuas
as palavras dormem
no seio do dicionário
o sono profundo dos inocentes.
Não as acordem.
Ouçam simplesmente o seu silêncio:
metódico, alfabético, inquietante.

Úbere semeadura esta
que tanto medra em bons viveiros
como na mais agreste tojeira.

Dentro de um dicionário,
do caos ao verbo,
cabe todo o Universo:
sem eufemismos,
sem hipérboles,
sem metáforas,
sem calendário.

Por vezes, é um bom semáforo
o meu dicionário:
sabe soltar o verde da esperança,
cuidar do amarelo da temperança
e parar no vermelho, por segurança.

Mas deveria ter mais sinais
o meu dicionário.
Deveria acautelar-me,
porquanto nele comungam
vida e morte,
respeito e desprezo,
nobreza e preconceito,
ciúme e remorso.

Nele crescem lado a lado
a iniquidade e a justiça,
a bondade e a ferocidade,
a irracionalidade e a razão,
a fidelidade e a traição.

E, como se tudo isto não bastasse,
o verbo e o caos
vagueiam perdidos pelo meu dicionário,
no particípio e no presente,
como sempre,
desde o princípio.
Tantas são as vezes
em que a dúvida se sobrepõe à certeza,
o ódio ao amor,
a indignidade à nobreza,
a cobardia à coragem,
a penúria à riqueza,
a guerra à paz.

Ventos oscilantes e incertos
deambulam pelas dobras vazias do tempo
sobre as searas incendiadas
que medram no meu dicionário.

Deixai, pois, dormir as palavras!
Deixai-as dormir, deixai!



Distanciando-se das obtusas complicações do presente, trazia saudosamente à memória o tempo primordial e simples, um nostálgico caleidoscópio de cores e brilhos irradiados pelos espelhos de luz das ribeiras da sua infância, repletas de juncos, libelinhas, nenúfares e risos de crianças.

A minha praia



A "minha" praia fica não muito longe da Praia de Ingrina (Igrina na "Obra Poética" III, 4ª Edição), da nossa saudosa e amada Sophia de Mello Breyner Andresen, onde "o grito da cigarra ergue a tarde a seu cimo e o perfume do orégão invade a felicidade» e onde se vê «o mar reflectido no seu primeiro espelho."


A minha praia


A minha praia é como uma sala de cinema.
Depois de um filme outro filme vem,
com novos actores e novo tema.

Pelo ângulo raso das horas
chegam à praia as barcas d’ alva.
Têm por âncora os músculos
bronze dos pescadores
e por alavanca os tractores
que sulcam a areia molhada.

Evanescentes torvelinhos de escamas e espuma
reflectem, bordados a oiro e púrpura,
os arrebóis da aurora.
É perpétua a sede da areia,
em cada fluxo mais sequiosa.

Estamos agora
no ângulo recto das horas.

No sol radiante da manhã clara
sobriamente gaiata
mudam-se os actores e as coisas.
É a vez dos nadadores-salvadores,
das bandeiras verdes
e dos primeiros veraneantes.
É tempo de bolas e de baldes de plástico,
de cadeiras de praia, toalhas, pára-ventos
e guarda-sóis de cores berrantes.

No rastilho luminoso de mar e sol
que penetra o azul eterno
vogam gaivotas de dorso cinzento
e peito de alabastro
trazidas pela viração aromada do galerno
que sereno sopra do largo
em perfeito contraste
com os escusados guarda-ventos.

Chegámos à prata do meio-dia.
Há legiões de corpos,
uns bronzeados, outros lácteos,
em descontrolada disputa
por cada palmo do areal.
E há gritos e risos de crianças,
brados de adultos
e pregões de vendedores de gelados.
E há corridas e passeios a pé
e desafinados mergulhos,
e repouso absoluto sobre a areia,
e até se ouve o roncar duma avioneta
sob os céus de Julho.

Diante do olhar tranquilo da cidade
tudo de novo se caldeia
em eternos fluxos e refluxos
que alternam a vazante com a maré cheia.

O bronze, ainda moço, desce do Sol
e em doces afagos amorena os corpos.
Aqui perto, munida de dois baldes de plástico,
uma criança tenta verter todo o mar
para um poço de areia e de cascalho,
diligenciando desvendar um mistério
que ouvira na catequese.
A seu lado, ofegantes,
dois jovens em piruetas de reviralho.
Mais à frente, joga-se volley de praia
e futebol de areia,
que irritam os que descansam
mas enrijecem e bronzeiam os que não se cansam.

Vai alto o Sol resplandecente
na tarde que aquece, imóvel,
sobre o longo declive
que baixa do zénite ao poente.

Numa ignescência
de sol e de sal,
êxtase são os risos e as algas,
enquanto alva a espuma continua
a sua dança de ventre com a areia.
No fresco remanso da brisa,
milhões de estilhas de luz beijam os ares
em eterno jogo de escondidas com o astro-rei.

É esta a praia onde te procuro,
na ausência da babilónia de vozes e de corpos.
É aqui que no breve sussurro do entardecer
um búzio me segredou, na maré nua,
que tu virás um dia pela noitinha,
ao nascer da Lua, pra eu te ver.







para ouvir a música - não visível-


“Jupiter and Juno”, from “The Loves of the Gods”,
by Annibale Carracci (1560-1609)

à deusa juno

em ti, bendita juno,
a consagração do mês das regas e das colheitas,
a que concedeste a nobreza do teu sacro nome.
um mês de solstício, de casamentos e namorados,
de suculentos frutos e legumes,
de santos populares e fogueiras,
mês da foice em punho
e do flavo trigo nas eiras.

é este o teu mês,
divina juno,
e nele quero relembrar
e honrar o teu bom-nome
e deixar o meu testemunho.

belas e rociadas de plenitude
as noites e as antemanhãs
que nos concedes na quietude dos dias.

na beleza dos teus olhos,
a embriaguez azul
da infinitude dos céus,
a mesma luz que ofusca e inebria
os humanos e os deuses.

em teus purpurinos lábios
o incitamento ao beijo.
no teu corpo divino
o amor, o desejo, a beleza,
a força feminina
que gera a vida
e canta a natureza.

zelosa em teu himeneu com júpiter,
único no olimpo,
proteges, na tua graça,
como se fora teu,
o casamento de todas as mulheres,
que acolhes e amparas no teu coração.

a ti, deusa da maternidade,
elevo a minha voz e o meu olhar
e ofereço,
na modéstia dos simples,
o meu humilde verbo.

a ti, juno - ou hera -
rainha dos deuses
que cintilante nos surges
na tua clâmide de oiro e estrelas,
ergo a minha taça de vinho romano
- ou grego, tanto faz!–
e brindo à tua pureza,
à tua sensualidade,
à tua excelsa beleza,
na infinidade do olimpo arcano
de onde sopram os ventos da paz
e onde tudo é claro e exacto
e imponente e não efémero,
porque divino, e não humano.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades



José Mário Branco (adaptação - refrão a vermelho), instrumentação e interpretação do soneto “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”,de Luís de Camões


10 de Junho de 2008


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre, tomando sempre novas qualidades.

E se todo o mundo é composto de mudança
Troquemos-lhe as voltas qu’ inda o dia é uma criança.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, e do bem, (se algum houve...) as saudades.


Mas se todo o mundo é composto de mudança,
Troquemos-lhe as voltas, qu’ inda o dia é uma criança.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
E em mim converte, e em mim converte em choro o doce canto.


Mas se todo o mundo é composto de mudança,
Troquemos-lhe as voltas, qu’ inda o dia é uma criança.


E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía
Que não se muda, que não se muda já como soía.


Mas se todo o mundo é composto de mudança,
Troquemos-lhe as voltas, qu’ inda o dia é uma criança.

______________


“Dia da raça”, diz descabidamente o PR.

E eu digo: "dia inscrito em tempos de servidão e de desgraça, em que já se morre numa greve". (1)


(1) “Um elemento do piquete de motoristas em Zibreira, Alcanena (distrito de Santarém), foi atropelado mortalmente ao início da tarde (de hoje, 10 de Junho), por um camião que tentava furar o bloqueio (…)” (Agência Lusa, 10 de Junho de 2008)





Nada perdi de que fosse dono.
Nada ganhei do que não fora meu.
O que perdi? Tudo do nada que tenha tido.
O que ganhei? Nada do tudo que não tenha sido.
O que me resta? Nada do nada que não se tenha ido.


(imagem da autoria de Edna Feitosa)


uma intensa e profunda mágoa escapava-se-lhe dos olhos
como se todo o horizonte de água à sua volta se ensombrasse
e a natureza inteira se tivesse bruscamente desagregado
das estações de vivaldi para se unir à lacrimosa de mozart.









liberdade,
dignidade, justiça!









nascer.
renascer.


numa florescência de luz
suavemente nascer
e criar raízes.


serenamente renascer
por entre os lençóis de abril
sob a fragrância fresca
e impoluta dos cravos vermelhos.


tranquilamente nascer
- ou renascer -
sob o azul ameno
dos espelhos da esperança
que respira
e embala
e encanta
a primavera dos cravos
e da liberdade.




Onde param os espelhos da esperança?
Quem neles se vê ou revê?
Eu, não.

que as rosas - todas as rosas! - jamais espinhem o amantíssimo cravo.


25ABRIL2008



Pássaros cruéis


Green Day – “Wake Me Up When September Ends”







Pássaros cruéis


Um fluxo de dólares e de sangue
jorrando sobre a Mesopotâmia.
Um sino de fogo embutido nos umbrais do deserto.
E a fúria insana.
O crude golfando sobre o equinócio
num concerto de cinzas e de morte.

E há falcões.
Falcões que dançam e pairam sobre os soluços
do amanhecer sangrento.
Talvez abutres.

Cascatas de fogo, favilas calcinadas,
estilhaços, gritos, pedaços de argila.
Não há palavras. Apenas bombas e armas
e a morte galopando sobre as cidades.

Breve, um talismã tomba sobre o asfalto.
Um turbante esvoaça, branco,
sob o luar negro de fumo.
Calou-se a flauta de vento
que flébil gemia sob a tamareira.
Eternos e piedosos, a Lua e Vénus
velando a morte.

Cessaram os sorrisos no país de Aladino.
Sangue e lágrimas, apenas.
Um sem-fim de covas e cemitérios e morte.
A face lúgubre e sombria do fim.

Onde as crianças acordadas
no seu sonho peregrino?
Onde o berço da civilização? Onde a justiça?
Onde Babilónia, a dos Jardins Suspensos?
Onde as palavras que brotaram da argila?
Onde a água de sonho do Tigre?
Onde os pássaros voando na brisa levantina?
Onde as chispas de oiro e prata
das águas de espelhos do Eufrates
ora tintas de sangue?
Onde a mulher que embalava no berço
o seu menino de olhos de mel?
Onde o menino?
Onde a Babel?

A coberto dos ventos de opróbrio e azeviche,
nabucodonosores de barro tombam
-outros elevam-se! -
no resvalo da pedra de Sísifo.
Será tarde, muito tarde,
quando trepidantes de náusea
os corcéis de fogo do Apocalipse
migrarem para o frio
na companhia dos pássaros cruéis.

O verbo distorcido aguarda, receoso,
a frieza invencível da razão clara.
Viscoso e mole o mutismo dos homens
flanqueia a gelatina estática do caos.
Fenece, a pouco e pouco, o país de Gilgamesh.

____________________________________________

(Contador de actualização automática)


Após 5 anos de guerra:


Civis iraquianos mortos, em consequência da guerra:

desde 19MAR2003 até 25MAI2008, entre 84.050 e 91.713, segundo o Iraq Body Count;

654.965, segundo a prestigiada revista médico-científica britânica The Lancet, de 21OUT2006 (número de mortos calculado até 30SET2006)

Entretanto, segundo a CNN, as baixas das forças invasoras elevavam-se, em 23MAI2008, a 4.391 mortos (4.079 militares norte-americanos e 312 militares das restantes forças da coligação).

Militares norte-americanos feridos (até 23MAI08): 30.112 (fonte do Pentágono, segundo a CNN)


Morreram no Iraque 123 jornalistas, desde o início da guerra até 19MAR2008.,

Não são conhecidas as baixas das forças de segurança do Iraque bem como as dos chamados “rebeldes”.


"O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons."
Martin Luther King


Fontes:
http://www.iraqbodycount.org/
http://edition.cnn.com/SPECIALS/2003/iraq/forces/casualties/
http://www.thelancet.com/
http://icasualties.org/oif/

'erro bush' o mesmo que "erro crasso"








Os idos de Março sempre foram aziagos para os senhores da guerra.

Gaius Julius Caesar fora avisado por um áugure, quando a 15 de Março do ano 44 a.C. regressava da campanha da Gália, de que, como os idos de Março são fatídicos, não deveria entrar em Roma naquele dia. Insistiu, e entrou. O que aconteceu, já todos sabem. Foi apunhalado à entrada do Senado.


Mais de 2 milénios depois, nos idos de Março de 2003, “Georgius Bushus II”, “imperador da nova Roma”, decidiu invadir o Iraque, apesar da opinião contrária da maioria dos governos do Planeta, dado que as razões por ele aduzidas enfermavam de vários vícios. Ao arrepio das determinações da ONU e do bom senso, a guerra foi levada a efeito.


Talvez G. Bushus II não saiba desta coisa maléfica que são os idos de Março…


Embora os dicionários o não refiram - mencionam apenas que “crasso” deriva do latim “crassus” e significa “grosseiro” e “ignorante” - tenho para mim que o vocábulo deriva do nome de Marcus Licinius Crassus, homem grosseiro, teimoso e de medíocre talento, que foi cônsul e triúnviro da Roma Antiga, mercê da sua enorme fortuna e de fortes influências políticas.


Um dos muitos erros “crassos” daquele político romano foi não ter acatado os conselhos dos seus generais, ao pretender fazer guerra aos belicosos Partos, que apelidava de bárbaros imundos.


A Pártia englobava os territórios que vão da parte leste da Síria actual ao Afeganistão e Paquistão, e incluía todo o Irão e Iraque actuais, além de outras regiões vizinhas.


Crasso, devido à sua teimosia, viria a morrer às mãos dos Partos que tanto desprezava.


Talvez G. Bushus II também não saiba deste funesto acontecimento…


Acontecimento, aliás, já pressagiado (leia-se filmado) pelos 'áugures' do britânico "Channel 4", como se pode constatar no endereço seguinte (não é permitida a incorporação do clip no blog, pelo que trago, somente, a respectiva url):

http://www.youtube.com/watch?v=Wvwyx8Ai14U



Em comum com Marcus L. Crassus, temos que G. Bushus II ascendeu rapidamente na política auxiliado pela influência de instâncias poderosas e pela imensa fortuna familiar. Em comum, ainda, a invasão do Iraque e a tentativa de submissão da Síria e do Irão, para já não referir o Afeganistão (o outro tentou, mas morreu).


Creio que a “ nova Roma” tem dentro de si a figura temerária de um novo Marcos Licinius Crassus.


Quem diz que a História não se repete?


Entretanto, sugiro humildemente aos dicionaristas que passem a incluir nos dicionários um novo vocábulo: “bush”- adj., crasso, grosseiro, ignorante.


Nota: G. Bushus II declarou o término oficial da sua guerra de Pirro no dia 1 de Maio de 2003, altura em que o nº de mortos entre os seus soldados ascendia a 140 . A partir dessa data já morreram mais 3 715 militares, ou seja, 26,5 vezes aquele número (3 855 soldados norte-americanos mortos até 05NOV2007).


Que grande estratega, este Crassus moderno!!!


"Pilgrim" by Enya & The Hubble Deep Field by Tony Darnell

“(…)


Each heart is a pilgrim,
each one wants to know
the reason why the winds die
and where the stories go.
Pilgrim, in your jouney
you may travel far,
for pilgrim it's a long way
to find out who you are...


Pilgrim it's a long way
to find out who you are...


Pilgrim it's a long way
to find out who you are...”




Esta é, para mim, a mais bela homenagem prestada a Carl Sagan (1934-1996), porventura o maior astrónomo, astrofísico e astroquímico de sempre.


peregrino


Mikhail Ivanovitch Glinka, "Nocturno para harpa" (1839).





Quase nocturno



Engastado de mil cristais
é azul e fresco o céu nocturno.
Alta vai a Lua de Março,
círculo branco de prata
constelado pelo Serpentário.
Lua lânguida e trémula
que beija as ondas luminosas
do teu cabelo solto
e o carmim cintilante dos teus lábios.


Flava e imóvel
a seara de estrelas
paira sob a abóbada
zelosa do lume vivo dos teus olhos
e da doçura da tua boca fresca.


No veludo dos teus lábios
acesos na cor dos cravos
flutua um sorriso de fada.
Navego nesse sorriso
e naufrago na superfície dos teus olhos.
Trago nos meus abrigadas as mil distâncias,
essas linhas imensuráveis e exactas
que se fundem no sal mítico das lágrimas.


Trago nos pulsos o sangue roxo
das amoras bravas
e nos lábios o mel do verbo
que colhi contigo no verão passado.


E trago comigo o grito da águia solitária,
esse brado selvagem que ecoa no deserto
em cujas areias se fundem os meus sonhos
e onde as pérolas que brotam dos teus olhos
se desfazem em miríades de cristais
que sorvo silente a longos haustos.


Navego assim sem regresso
na curva ardente dos teus lábios
no rio fluente e sem margens
do teu sorriso ático.




Salvador Bacarisse - Concertino guitarra y orquesta, op. 72 - Romanza

___________________________________________________


Aceita com estoicismo a rejeição. Darás, assim, prova de elevação e de carácter, ao respeitar a liberdade de escolha dos outros.
Peregrino

__________________________________________________