AC_FL_RunContent( 'codebase','http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=9,0,28,0','width','148','height','165','src','musica','quality','high','pluginspage','http://www.adobe.com/shockwave/download/download.cgi?P1_Prod_Version=ShockwaveFlash','wmode','transparent','movie','musica' ); //end AC code

Richard Strauss, “Assim falou Zaratustra, opus 30”, fragm. “Amanhecer” (1896).





Madrugada




se escutares
a voz de silêncio das estrelas,
ouvirás dizer que tu chegaste.
que chegaste nas asas do galerno,
essa corrente eterna
de ar oloroso e fresco
que sopra do mar.
e se olhares para trás,
para o rasto perfumado dos teus passos,
verás nos rostos dos que te seguem
o espelho cristalino do teu sorriso
solto no céu anil da madrugada.


[se te disser que chove na noite dos meus olhos
e que neva na madrugada do meu coração, não te minto.
são frases tão correctas como correcto é dizer-te que o quarto de lua
cavaqueia neste momento com a bela sadalmelik na constelação do aquário
e que o sol cintila, na sua luz branca, constelado pelo carneiro,
enquanto júpiter adormece, lânguido, no asterismo do sagitário.]




(29ABR2008, 22:00 horas)





Joaquín Rodrigo – “Concierto de Aranjuez” 2º Mov.
Interpret. à guitarra, Paco de Lucía (epdlp)




e todavia...



tudo volta ao princípio:
as flores, as pedras, a bruma, a tempestade...
e cada grão de tristeza
de que é feito o meu corpo
é levado pelo vento
e é-me devolvido pelo mar.
assim hoje,
tal como ontem e amanhã,
em ciclo,
incessantemente.


morrer leva tempo.
o tempo exacto de morrer devagar.
morri ontem, morrerei amanhã,
e no dia seguinte serei pedra, gelo, cinza, lava...
não sei onde mora o regresso.
só sei das folhas de outono e
das flores de inverno.
não das da primavera.


ainda que não chova,
outono-me na noite fria,
sem bússola nem polar,
por entre a neblina e as árvores.
divago assim dentro do inverno adiado
e adagio-me em arco sobre as cordas
tensas de um violino amargurado,
como se uma lia de veludo a partir-se.


[entanto, há tanto frio e tanta chuva morta,
e tantas folhas molhadas, perdidas de inverno,
penetrando oblíquas pelos umbrais da minha porta!...]





Gabriel Fauré (1845-1924), Pavana, opus 50.
.

Pavana triste pela mocinha
vitimada pelo coronel (in)sensível


Sim, quinze anos tinha
no seu corpo em brasa
a infeliz mocinha
que não tinha casa.
Tinha tranças d’oiro
e a pele alvacenta,
tu foste o primeiro
a arrastar-lhe a asa
naquele Janeiro
dos anos setenta.

Ela pai não teve
sequer tinha mãe
não tinha sapatos
não tinha vestidos
não tinha ninguém,
só dias sofridos.

Não havia lua
não havia estrelas
nem sequer abrigo,
a casa era a rua
da pobre donzela
que não tinha amigos.

O seu corpo grácil
de pele de alabastro
jamais resvalado
em sua puridade
não tinha cadastro
mas foi presa fácil
dum lobo esfaimado.

Se um dia voltares
à estrada velha
no negrume agreste,
detém-te e descobre-te,
acende uma vela.

Verás numa faia
- ou “feral cipreste”? -
a seta-coração
bem como a mensagem
que a bela catraia
em aflito pranto
no tronco entalhou
nessa noite túmulo
do seu corpo espanto.
Verás, para cúmulo,
que foste o primeiro
e também o último
a dar-lhe dinheiro.

(Peregrino)

NOTA:
a expressão “feral cipreste” foi retirada de "O Noivado do Sepulcro", de Soares de Passos.

já a seguir, o bolero do dito coronel:


Bolero do coronel sensível
que fez amor em Monsanto


Eu que me comovo
Por tudo e por nada
Deixei-te parada
Na berma da estrada
Usei o teu corpo
Paguei o teu preço
Esqueci o teu nome
Limpei-me com o lenço
Olhei-te a cintura
De pé no alcatrão
Levantei-te as saias
Deitei-te no banco
Num bosque de faias
De mala na mão
Nem sequer falaste
Nem sequer beijaste
Nem sequer gemeste,
Mordeste, abraçaste
Quinhentos escudos
Foi o que disseste
Tinhas quinze anos
Dezasseis, dezassete
Cheiravas a mato
À sopa dos pobres
A infância sem quarto
A suor, a chiclete
Saíste do carro
Alisando a blusa
Espiei da janela
Rosto de aguarela
Coxa em semifusa
Soltei o travão
Voltei para casa
De chaves na mão
Sobrancelha em asa
Disse: fiz serão
Ao filho e à mulher
Repeti a fruta
Acabei a ceia
Larguei o talher
Estendi-me na cama
De ouvido à escuta
E perna cruzada
Que de olhos em chama
Só tinha na ideia
Teu corpo parado
Na berma da estrada
Eu que me comovo
Por tudo e por nada

(António Lobo Antunes)




vazio



pois que frágil é o corpo
e efémero é o sonho,
talvez tenha sido
um incêndio de olhos,
quiçá de relâmpagos,
ou um reflexo de sol
sobre espelhos de água
de brilho intenso.


acaso um vento
magnético e solar
terá soprado naquele verão
numa estranha fluorescência de oiro e fogo
e iluminado, em intermitência,
qual boreal aurora,
os misteriosos altares do nada.



Johann Pachelbel, Cânone em ré maior (1680)






nas longas noites
que do céu caem
frias de inverno
no mês de jano
que imperturbável cresce
enquanto o glacial bóreas
talha sob o alvor do luar
os harmoniosos sincelos
quero incendiar-me
no fogo dos teus lábios
no fulgor dos teus olhos
no verão dos teus braços
no veludo quente da tua pele
e adormecer sob os altares de vento
da primavera dos teus cabelos.



Shambala



Passei a tarde toda à tua espera, à beira do lago do Jardim dos Poetas, na Cidade-Luz, esse flamejante paraíso da nossa Galáxia, onde rumorejam as fontes, os poetas e os deuses e vicejam o jasmim e o nardo, por entre palácios de zimbórios ogivados circundados por verdejantes e espaçosas alamedas.

O Sol flutuava sobre o Poente, quando observei a tua silhueta fascinante e sedutora no cimo da escadaria de mármore do Palácio do Caminho do Meio que margina o lago juncado de nenúfares multicores, à hora a que os céus se preparavam para entardecer sobre as dunas douradas do imenso e desmedido Gobi.

É esse, como sabes, o momento exacto e sublime em que a fulguração dos raios de luz do astro-rei produz um efeito alucinante de brilhos e refulgências sobre os rubis e safiras incrustados nas torres e cúpulas levantinas dos pujantes templos e palácios da Cidade-Cintilante.

Vi-te assim, vestida de serenidade e encanto, em Shambala, a cidade mítica e esquecida do deserto, em contraluz gerada por uma miríade de nitescências de cristais, gelo e areia.

Contemplei-te, pois, trajada de dignidade, bondade e meditação, junto à estátua de oiro do velho Gautama, no Jardim dos Poetas. E só dei pela noite quando tu saíste, e as estrelas te seguiram.

Só eu fiquei na escuridão.
Sonho-te agora, na penumbra dos dias, sob o azul fulgurante das memórias que flutuam sobre as searas brancas e luminosas da Cidade-Utopia, e espero-te. Na encruzilhada dos Oito Caminhos. Junto à estátua do velho Siddhartha. Em sonhos te aguardo.

Peregrino, in o "Templo das Palavras Esquecidas"


Arcangelo Corelli, "12 Sonatas para violino, violoncelo e clavicórdio"
Fragmento "nº 12, La Follia" (1700).




Geometria


Hoje não falarei, meu amor,
das essências do Oriente
nem da ambrósia que rocia os teus lábios.
Tão-pouco referirei
os capitosos elixires
do amor e da existência,
ícones sagrados da tua presença.

Hoje quero falar, e só,
da geometria acesa do teu corpo
e da gramática estilizada dos teus lábios,
onde paira a divina parábola.
Quero que saibas
que os teus olhos acendem os meus
e que meus dedos buscam nos teus
o alfabeto rosa
com que costuro as palavras.

Hoje quero falar da geometria
das colinas onde crescem as cerejas,
da planície e do monte do desejo,
do teu sangue quente,
que conduz nas minhas veias
o consolo e o alento.

Hoje quero falar dos ramos da hipérbole
que convergem na tua cintura de deusa grega,
das curvas elípticas dos teus lábios,
da linearidade do teu carácter,
da textura aveludada da tua pele,
do calor do teu corpo,
que me abriga e dá prazer;
do trigo do teu cabelo,
do aroma dos teus lábios
e da cintilação dos teus olhos
à luz azul-rosa dos néons da alameda.

Hoje não falarei, amor meu,
de néctares nem de filtros,
nem de essências do Oriente;
tão-pouco vou falar do azul do céu,
do etéreo timbre dos violinos de Corelli
ou do sonho que me prende, recorrente.
Hoje quero, amor, que ouças apenas, e tão-somente,
a geometria das coordenadas do meu silêncio...



Germán Diaz, "Ausência".




que farei das palavras sem o mel
lunar que escorre do teu rosto?
que farei do lume deste verbo
que nasce das pedras pandas
e trepa e viceja e medra como hera?


sim, que farei das palavras em que navego,
sem a simetria da parábola do teu torso?
que farei eu, que sou a assíntota
da hipérbole infinita do teu corpo?


que farei dos violinos de outono
que acordam e soluçam o meu desespero
quando anoiteço à deriva
como um rei sem trono?


que farei nos degraus oblíquos do amanhecer
por entre o zéfiro e o roxo das uvas
no odor morno e agridoce a fruta e a vinho mosto?
sim, quem me vai acordar “when september ends”?



Arcangelo Corelli, "12 Sonatas para violino, violoncelo e clavicórdio"
Fragmento "nº 12, La Follia" (1700).




Sonhos, vagos sonhos...




Sonhos, sonhos vagos,
sonhos azuis, castanhos,
delírios conscientes
germinados no sal da saudade.


Sonhos, vagos sonhos
que suspendem no vento
a minha voz silenciosa
e os meus segredos.


Sonhos, vagos sonhos, breve esperança
que a brisa singela eleva nos seus dedos
qual arco-íris que vagueia embutido
na bola de sabão duma criança.



Pela Paz, contra a Guerra!





Pela Paz, contra a Guerra

[Escrito a 12FEV2003 (5 semanas antes do início da guerra do Iraque)]


Umbelas, aviões e helicópteros
estrelam o céu azul eterno
do país da lendária Semíramis.


Rambos pintados destilam filtros de ódio
no berço da Primeira Civilização
e matam e morrem em guerras de petróleo
para impor a Babilónia o seu padrão.


Fragrâncias das Mil e Uma Noites
caldeiam-se com cheiros acres a Vietname
nos céus que foram da antiga Babilónia,
agora rastreados a branco por mísseis Sam.


E voltam a cair do azul infindo,
no suor dos camuflados amarelos
e de verde suspeito,
não babilónicos sonhos a Sherazade
mas Medusas que a sábia Ateneia
transforma em serpentes
que rastejam areias de oiro em pátria alheia.


E chovem divisões, tanques,
navios de guerra, jipes, camiões,
exércitos de Yankes,
helicópteros, aviões e
mísseis balísticos ar-terra-mar
em todas as combinações.


E há bombas laser,
porta-aviões,
granadas, balas e outras munições,
máscaras anti-gás,
baterias de canhões
e armas electrónicas.


Alguém viu armas químicas,
nucleares, biológicas?
Não?
Porquê a guerra então?!


Em terras de amavios e de essências
há filtros de ódio e contingências
de guerras económicas de petróleo.


Na madrugada do deserto inda estrelada
perecem xiitas, sunitas, americanos,
baralhando religião e liberdade,
quando se batem e tombam
apenas pelo ouro negro de Bagdad.


E morrem com estes homens,
crianças, velhos, jovens,
e mulheres duplamente sacrificadas
pela Bíblia e pelo Corão.
Tudo isto no país de Aladim,
terra que foi de fadas
e de varinhas de condão;
terra de magia e de lendas,
de princesas, mágicos tapetes e sultões,
em que a mítica Bagdade
apenas tinha um Ladrão.


Acabaram os elixires
no país de Sinbad,
ora sem génios nem grão-vizires.
Os tapetes mágicos
são agora aviões F-Dezoito e F-Dezasseis
e poderosos mísseis cruzeiro
trepassando os céus sangrentos de Bagdad.


Em terras de amavios e de essências
há filtros de ódio e contingências
de guerras económicas de petróleo.


Na antiga Babilónia e na velha Assíria,
terras de lendas, berços de antigas civilizações,
não queremos heróis a haurir o hidromel das Valquírias;
tão-pouco concebemos o retorno dos Quarenta Ladrões.


[Pela Paz, contra a Guerra,
virtuosa frase que a honra encerra!]


12FEV2003






Wolfgang Amadeus Mozart, Requiem, K626, 1791 fragmento “ Lacrimosa”


Rafah, Faixa de Gaza, Abril de 2002



A fúria assassina das balas rastreia
o corpo inocente duma criança da Palestina.
Não é lenço, a gaze branca e breve que lhe contorna a fronte.
Tampouco é burqa ou xador, a túnica alva e longa
que lhe envolve o corpo tenro. É um lençol de sangue.
Tinha seis curtos anos, esta menina;
os pais lhe deram um nome: Somaeah Hassan.

omnia vincit amor



omnia vincit amor



é brisa é eco raiz lamento
e no entanto não chora nem ecoa
antes ruge e troa tão pungente
tão indefinido quão incerto e transparente
que não é chuva nem é fogo nem é vento
é antes e tão-somente uma furtiva lágrima
um sentir de poeta um reflexo de luz intenso
tão demorado tão oculto e tão dolente
e é de tal forma e de tal sorte tão premente
que ressoando clandestino pelo peito
sentindo-se contudo não se sente
e ardendo todavia não se extingue


Nota: o título do meu escrito, "omnia vincit amor", foi retirado do verso 69, da Écloga X, de Virgílio.




Pyotr Ilyich Tchaikovsky - "A Bela Adormecida" (1889) - frag. "Panorama"





Cavalos da luz e do vento



Dizes-lhe que chame a si o pégaso de asas de oiro e o unicórnio de crinas de alabastro, a que chamas os cavalos da luz e do vento, que, na sua pureza e justiça, e flanqueando todos os abismos, a levarão para bem longe das suas angústias, mágoas e pesares, e a conduzirão ao reino transparente do fantástico, onde abundam o amor, o mel, o leite e o vinho ático da sabedoria e da ternura, e onde não há adversidades, nem desafectos, nem desventuras. Dizes-lhe, também, que coloque no Pégaso e no Unicórnio, respectivamente, uma brida de prata e outra de oiro.

Acrescentas que nesse reino cada vento pertence a um só quadrante e cada quadrante a um só vento, por forma a que ela possa determinar o perfume exacto em cada ângulo. Assim, o aroma doce do zéfiro será diferente do brando perfume do galerno, e a fria fragrância do bóreas distinta dos odores acres e abafados do desértico e arenoso suão ou do austero e sibilante vulturno.

Dizes-lhe, ainda, que não se preocupe em saber qual o caminho a seguir, e que deixe tal tarefa aos cavalos da luz e do vento, pois que eles e só eles conhecem os quadrantes de onde emanam os excelsos aromas das flores e das palavras, que são os que conduzem à serenidade, à paz e ao amor.

Não usará sela, nem estribos, nem botas, nem esporas, nem puxará as bridas de prata e de oiro, porquanto elas são, tão-somente, um adereço exigido pelos cavalos da luz e do vento como preito à dignidade e nobreza dos seus equivalentes terrestres.

Cavalgará de dia o fulgurante unicórnio, e logo que Vénus se acenda no poente, montará o possante pégaso, até que o Sol incendeie de púrpura e violeta os arrebóis da madrugada, altura em que desmontará e subirá de novo para o dorso veludíneo do unicórnio. Assim fará durante três dias e três noites, ao fim dos quais entrará no reino encantado da Música e da Poesia, onde Apolo e Calíope, ao som de sonatas e poemas declamados, passeiam de mãos dadas sob o sol dos tempos, por entre as flores dos cômoros e das alfombras aveludadas do Olimpo.

Peregrino, in "O Templo das Palavras Esquecidas"


Vicente Emilio Sojo (Venezuela, 1887-1974)
Cinco Piezas Venezolanas - I,Cántico (1940)



sueño



baja carmíneo el sol en la montaña fría,
mientras en mi piel el rojo vino
sangra en la ilusión de la rubra aurora.
en mis ojos la visión serena, mía,
del rocío de la madrugada que llora
por ti lágrimas de amargada nostalgia.


en mis anhelos tengo la mirada clara
de tu cuerpo desnudo, albos senos al viento,
altos cumbres, que una vana quimera
convierte mi fantasía en vil tormento.


flagro en alcobas de vagos doseles,
de rúbeos veludos volitando al cielo,
en áridas colinas, yermos vergeles
de ausente placer en noche de breo.


en lunas de plata y en soles de oro,
cabalgo sin descanso noche y día
buscando tu olimpo, divinal tesoro,
para levarte hacia la secreta playa,
y, en la pureza de la llama que me consume,
besarte, mi alma, antes que la mía se vaya.



ME BASTA ASÍ



"La palabra en el aire". Pedro Guerra canta, e o poeta Ángel González recita o poema que se segue:


ME BASTA ASÍ


Si yo fuese Dios
y tuviese el secreto,
haría un ser exacto a ti;
lo probaría
(a la manera de los panaderos
cuando prueban el pan, es decir:
con la boca),
y si ese sabor fuese
igual al tuyo, o sea
tu mismo olor, y tu manera
de sonreír,
y de guardar silencio,
y de estrechar mi mano estrictamente,
y de besarnos sin hacernos daño
—de esto sí estoy seguro: pongo
tanta atención cuando te beso—;
entonces,
si yo fuese Dios,
podría repetirte y repetirte,
siempre la misma y siempre diferente,
sin cansarme jamás del juego idéntico,
sin desdeñar tampoco la que fuiste
por la que ibas a ser dentro de nada;
ya no sé si me explico, pero quiero
aclarar que si yo fuese
Dios, haría
lo posible por ser Ángel González
para quererte tal como te quiero,
para aguardar con calma
a que te crees tú misma cada día
a que sorprendas todas las mañanas
la luz recién nacida con tu propia
luz, y corras
la cortina impalpable que separa
el sueño de la vida,
resucitándome con tu palabra,
Lázaro alegre,
yo,
mojado todavía
de sombras y pereza,
sorprendido y absorto
en la contemplación de todo aquello
que, en unión de mí mismo,
recuperas y salvas, mueves, dejas
abandonado cuando —luego— callas…
(Escucho tu silencio.
Oigo
constelaciones: existes.
Creo en ti.
Eres.
Me basta).


Ángel González
(o poeta faleceu em Madrid, no dia 12 de Janeiro de 2008, com 82 anos de idade)


Camille Saint-Saens, "Sansão e Dalila", fragm."Bacanal"


Miragem


Escrevia-te até à madrugada das estrelas, quando estas se abeiravam da linha ténue e indefinida que separa a obscuridade nocturna do azul radioso da alvorada.
Essa era a hora em que a tristeza, contornando todos os obstáculos e silêncios, se ausentava. No intervalo ameno do teu sorriso, a noite escorria serena e sem ponteiros, confundindo-se com a respiração tranquila da terra. Só a estrela de alva no mostrador de espelhos da etérea abóbada marcava as horas. E assim, Jano e Cronos, no rigor inflexível que distingue os deuses dos homens, determinavam a abertura das portas a um novo dia.
(…)
Era esse o momento solene e sublime em que os meus olhos, sob o efeito fulgurante do lampadário do Sol, divisavam ao longe somente os contornos do teu torso feminino navegando a bordo do vento morno que soprava do Oriente, como se foras uma peregrina miragem. Mas à medida que te aproximavas, as ondas resplandecentes dos teus cabelos, associadas às linhas bem definidas da tua túnica, moldavam sobre o fundo de areia o teu corpo de deusa-menina, mostrando-me que o fulgor dos teus olhos não era uma alucinação dos meus sentidos. Eras mesmo tu, fina no porte e ágil na cintura, fresca e harmoniosa como sempre, que, trazida pela brisa levantina do meio-dia, flutuavas por entre as sombras vaporosas das palmeiras e dos sicómoros, por dentro do silêncio quente e perfumado das dunas do tempo que tornam imutável a razão das coisas.


Nesses ditosos momentos, imóvel e envolto no teu delicioso perfume, esquecia tudo e todos na distância dolorosa oculta pelo sal das lágrimas, e também de mim me esquecia, como se houvera regressado aos juncos, às pedras polidas e profundas, e aos verdes limos das ribeiras cristalinas da minha infância.



Peregrino, in "O Templo das Palavras Esquecidas"



Escrevo-te a tinta virtual



Sem forma, nem gesto, nem face,
como tinta de sangue que lacera as penas
nos abismos de uma enorme ferida,
a luz purpúrea e equinocial do cair da tarde
penetra como um espinho na minha carne.

Escrevo-te a tinta virtual.
Imperceptível, mas indelével.
O papel, um cristal de vídeo
numa floresta de sons mudos
vestidos da distância que traja
a dor imperecível da saudade.

Escrevo-te a tinta de água.
As minhas pálpebras piscam
sobre a íris fatigada
na perscrutação do horizonte líquido
de que se revestem as lágrimas.

Escrevo-te, pois, a tinta de sal,
imaginando que te vejo
através da bruma vermelha
que beija o mar e a areia
nos espelhos de silêncio
que purpurejam o ocaso.

Como vento bramindo rente ao velame
de um navio sem roteiro e sem escala,
os meus dedos fustigam as claves mudas
enquanto te sonham lume e verbo
no recuo da tarde frente à noite escura.
Escrevo-te, assim, a tinta de sangue.
A tinta de sangue te escrevo
nos umbrais do incêndio em que anoiteço.





Dá-me um pedaço desse teu deserto nu,
e com ele modelarei os meus dedos de areia.
E os meus dedos de areia hão-de ter raízes
e dessas raízes hão-de brotar palavras sobre as claves mudas.
E as claves mudas hão-de converter-se em lenho
e o lenho em nau. Uma nau romana, estranha,
de fogo e verbo greco-latinos, ondulando vertiginosamente sobre a espuma das águas
ao sabor das rajadas inclementes do vulturno.
Como um nocturno avejão de asas largas
profundamente dilaceradas.


Uma nau sem velas, nem leme, nem mastros, nem remos,
vogando opaca e silenciosa na noite atra
em busca de um porto de abrigo.
Uma nau fantasma que tenha por vexilo
a saudade da memória inicial
e por tripulantes os espectros de pedra, vento e areia,
que são os meus dedos de silício. Nados do deserto urbano. Que é o meu deserto.
O deserto nu onde te procuro,
ora convertido num frígido e plangente cristal de vídeo.


E é este gélido cristalino que teima em alterar,
por inversão, as retínicas e idílicas imagens
dos meus horizontes longínquos. Perdidos na voragem
da distância-abismo gerada e soprada por muitas ondas,
nesta floresta panda de sons mudos que esmagam o vazio.
Vazio que se veste de espelhos de branca espuma
e de uma miríade de lâmpadas estranhas.


Procuro-te, pois, no deserto urbano, através do abismo das sílabas
e de uma infinidade de labirintos sem margens.
Sei que é no seu termo que se encontra a afirmação dos teus olhos
e a confirmação do teu sorriso ático.
Por entre o silêncio tácito das arcas encoiradas
e o sossego deslumbrante dos livros antigos,
surges-me, assim, sol, asa, brisa, farol,
e ao teu porto de abrigo me recolho
como sedento peregrino ao viridente oásis.


R. Sakamoto – Merry Christmas Mr. Lawrence


É Natal, e no entanto…



Ah, pudesse eu ser início,
a chuva, o vento, o breve relâmpago
ou a resplandecente alvorada
de onde brotam todas as coisas!

Ser talvez um reflexo de tempo e de sol
sobre a vertigem da gota de orvalho
que cintila sobre os espelhos da madrugada.

Ser a ponte pênsil sobre o vazio
ou porventura a quietude indecisa do nada.


Ah, pudesse eu ser a palavra
ou o sinal do vento estranho
que escolta a ave que no outono emigra
num rumo de primaveras e árvores verdes
numa façanha irisada de infinitos!


Ah, pudesse eu entrar pela estrela de alva
e ouvir a tua voz nítida e doce
pairando sobre a quietude do solstício
num anúncio de aconchego e de Natal!


Ah, mas não sou,
não posso ser,
nem ouço a tua voz…
e assim me calo.








Não obstante...


Há algo de diferente
no círculo luminoso do Natal.
Algo radioso e belo
que, furtivo, se insinua
num despertar tranquilo e sem lamentos.
Como se as estrelas embutidas no firmamento
até nós descessem, inconscientes,
para fazer parte da nossa carne e da nossa mente.


(Como se desde sempre nos pertencessem)

Oliver Shanti & Joanne Shenandoah, "You can hear them dancing"


a flor do jarro



no vale do amor
sob as colinas
a bráctea alva
e espiralada
de uma flor de jarro.


deambula na envolvência
silente dos lençóis
e nos contornos do lume
quente dos seus olhos.


veleja na luz intensa
e sem penumbras
dos seus túmidos seios.


os seus dedos de areia
vagueiam pela epiderme incendiada
e naufragam nos anéis
de centeio dos seus cabelos.


em delírio
devaneiam.


tresvariam na nudez escarlate
e nítida dos anelos
noite após noite
sobre a pele mate
como se rubras pétalas
de rosas perfumadas
vogando ao sabor do vento...
abertas.